Boogaloo Joe Jones é um dos guitarristas mais cabulosos do Soul Jazz. Pouco conhecido do grande público, seu groove está sendo redescoberto!
A vertente do Jazz que ficou conhecida como “Soul Jazz” revela instrumentistas com vasto conhecimento sobre a música negra norte americana. Desde os Spirituals, passando pelo Gospel, Folk e Blues, todo esse repertório virou banco de dados na hora de improvisar.
Deve ter sido esse o raciocínio para classificar como “Soul Jazz”. Essa questão de rótulos é complicada, pois essa visão compartimentabilizada coloca o groove em caixas e parece que limita a verve criativa das propostas. Soul, Funk, R&B… Por que o Soul Jazz não está dentro do Jazz-Funk? É difícil dizer, mas enfim, citando o mestre Dave Liebman: “Jazz is a big word, just like the word food, you need to know what kind of food you want”. Na tradução literal, essa citação significa: “Jazz é uma palavra grande, assim como a palavra “comida”, você precisa saber que tipo de comida você quer”. Para conferir a entrevista completa com o Dave Liebman, basta clicar aqui.
Dentro dessa camada do Jazz e do groove, nem todo mundo conseguiu o mesmo prestígio do organista Jimmy Smith, por exemplo, mas a cena como um todo fomentou uma estética que rendeu discos antológicos e que de fato contribiu para a expansão da linguagem musical, com uma influência que foi notória na década de 1960 e 1970, mas que reverberou também em movimentos mais recentes, como foi o caso do boom da cena de Acid Jazz que tomou conta da Inglaterra, principalmente na década de 1990.
E para mostrar a força e relevância desse momento histórico, apresento a figura cult do senhor Ivan Joseph Jones, um ás da guitarra que depois de rechear a década de 70 com nove (fabulosos) discos de estúdio, via Prestige Records, simplesmente sumiu em meio à fumaça. Mesmo tocando ao lado de mestres como o baterista onipresente Bernard Purdie e o saxofonista Grover Washington Jr, o seu feeling e perícia na guitarra acabaram ficando meio obscuros. Pouco se sabe sobre a vida do norte americano, seus discos se tornaram verdadeiras relíquias com o passar dos anos, mas depois do play o ouvinte nem precisa de justificativa ou contexto.
Boogaloo Joe Jones – What It Is
Hoje toda essa abordagem é conhecida como Acid Jazz e o reverendo Boogaloo é, sem dúvida alguma, um dos principais nomes da vertente. Algo que fica claro como seu timbre quando ouvimos ”What It Is”, por exemplo, sexto disco de estúdio (pela Prestige) lançado em 1970.
Line Up:
Boogaloo Joe Jones (guitarra)
Grover Washington Jr. (saxofone)
Butch Cornell (órgão)
Jimmy Lewis (baixo)
Bernard Purdie (bateria)
Buddy Caldwell (percussão)
Track List:
”Ain’t No Sunshine” – Bill Withers
”I Feel The Earth Move” – Carole King
”Fadin”’
”What It Is”
”Let Them Talk” – Sonny Thompson
”Inside Job”
Essa é a guitarra do cult Boogaloo Joe Jones, um mestre desconhecido com pinta de nerd, mas com um swing instrumental descoladíssimo. O motivo pelo qual escolhi esse disco foi que dentre seus LP’s, esse é um dos menos mencionados.
São 6 temas sinuosos, e pouco menos de 40 minutos de play, emoldurados por 3 originais e 3 covers, sendo que o primeiro deles já é responsável por apresentar o som ao ouvinte com (possivelmente) um dos melhores covers de ”Ain’t No Sunshine” que já foi feito. O Bill Withers com certeza ficou orgulhoso dessa versão.
A banda é brilhante, a guitarra de Boogaloo dá o tom, mas a batera (Bernard Purdie) não perde o marca passo, o sax (Grover Washington) está com aquela cremosidade que eternizou clássicos ao lado de lendas como o já citado Bill Withers. O órgão de Butch Cornell, rapaz, o órgão uiva sempre que possível, enaltecendo a veia Gospel. O trabalho do baixista Jimmy Lewis também é bastante destacável. O groove de baixo elétrico deixa a timbragem mais cavalar e a percussão do Buddy Caldwell fecha a conta, acrescentando um swing, por que nunca é demais. Os toques do cidadão refinam a cama ritmica com classe.
A cozinha deixa tudo armado para a guitarra ficar solta, o baixo preenche os espaços e o resultado são versos criativas para temas clássicos, como em ”I Feel The Earth Move”, hit da (hoje já senhora), Carole King. A levada é ácida, tem pressão e acredite, vai demorar pra você chegar até o estardalhaço autoral de ”Fadin”’ e a faixa título. É impossível não ouvir todas as faixas pelo menos duas vezes.
Ainda bem que a internet existe para revelar discografias deste nível, que jamais podem se perder. O senhor Ivan eletrifica sua mente e tudo que ele usa é o swing como moeda de troca para intercalar e apresentar esse groove à partir de suas influências que já foram citadas no começo do texto.
Esse play mostra como o Boogaloo Joe Jones merecia mais. Mesmo gravando uma par de discos como líder – e outra leva como sideman – seu nome acabou ficando pelo caminho, mas ainda dá tempo de conhecer a carreira de um dos maiores solistas do Soul Jazz. Outro ponto que vale destaque é que esse, assim como outros discos do herói incógnito, foram gravados no clássico Van Gelder Studios, por isso que você escuta tudo tão bem.
As faixas autorais são o grande destaque do LP. “Fadin'” é Blues puro. Até a ordem das faixas é interessante, pois a experiência de escuta é bem linear, o trampo mantém uma constante que não deixa a peteca cair e a faixa título mostra isso, com a tônica do play, a ponte entre o Blues e o groove do Gospel.
Groove 100% instrumental e que entrega desde belíssimas baladas, como “Let Them Talk” – último cover do LP, de autoria do Sonny Thompson, bandleader americano, famoso principalmente entre a década de 1940 e 1950 – até “Inside Job”, com aquele boogie que faz até um idoso sem quadril dar aquela rebolada estratégica.
“Boogaloo Joe Jones”, grave esse nome. 1971 meu chapa e olha o som que o cidadão extraia de sua guitarra. E detalhe: sem 38 tipos de pedais diferentes. O feeling está no dedo, na digital e o resto é história. Play no Boogaloo.
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