A mistura entre o afrobeat do Tony Allen e o Techno do Jeff Mills. Nigéria e Estados Unidos numa ponte improvável, groovando com classe.
Um dos grandes desafios para a longevidade na carreira de um artista envolve a sua capacidade de adaptação. É uma habilidade camaleônica que apesar de difícil, cumpre a complexa tarefa de tornar a música atemporal.
Dessa forma, surgem experimentações que buscam não só mostrar novas possibilidades – em meio às novas tecnologias e subgêneros – mas também cruzar fronteiras, justamente por que a velhice não é desculpa pra ser careta. É dessa forma visionária-futurista que a improvável união entre o Tony Allen e o Jeff Mills pode ser resumida.
Do outro lado do salão está o americano Jeff Mills. Produtor, DJ, compositor e uma das maiores referências da música eletrônica – principalmente no que diz respeito ao Techno – o midas dos beats de Detroit coloca a casa pra dançar desde os anos 80.
Vale ressaltar que apesar do projeto existir desde 2016, ele só virou disco 2 anos depois, já em 2018, muito em função das conflitantes e atarefadas agendas dos 2 meliantes.
Sim, do alto de seus (à época) 76 anos, Tony Allen surgiu com um de seus projetos mais disruptivos. Ao lado do Jeff Mills – que aos 55 anos também não é nenhum garoto – a dupla cunhou o interessantíssimo “Tomorrow Comes The Harvest” e o resultado impressiona pelo teor orgânico e original das faixas.
Line Up:
Tony Allen (bateria)
Jeff Mills (beats)
Carl Hancock Rux (voz)
Track List:
“Locked And Loaded” – Edit
“The Night Watcher” – Edit – Carl Hancock Rux
“On The Run” – Edit
“The Seed” – Edit
“The Night Wastcher” – Instrumental
“Locked And Loaded”
“The Night Watcher” – Carl Hancock Rux
“On The Run”
“The Seed”
O mais interessante dessa união não é nem a disparidade de influências que uniram os 2 em nome do projeto, mas sim a dinâmica que foi criada. Ao vivo, o duo é acrescido do tecladista Vincent Tiger e seu trabalho é bem claro: promover texturas sob os ritmos de Tony e contrapor a sonoridade sintética da música eletrônica para promover uma conversa com Jeff Mills.
Até na época do show que deu início a tudo isso, Jeff deixa bem claro que eles não ensaiaram muito. Após 2 anos de gestação, o disco mantém esse clima de jam, com uma liberdade latente para quem ambos preencham os takes e consigam promover esse peculiar diálogo entre o afrobeat e o Techno.
A disposição das faixas ficou muito interessante. O disco desabrocha com os timbres industriais de “Locked And Loaded”, mas já logo muda de figura quando você escuta “The Night Watcher” e seu ácido groove embebido nos versos livres de Carl Hancock Rux.
É muito interessante notar as nuances, tanto das batidas de Jeff, quanto da bateria de Tony. O EP tem groove e em temas como “On The Run”, é possível notar como as diferentes escolas se influenciam mutuamente. Tem hora que o grave engrossa de um jeito que parece até um Soundystem.
Em temas como “The Seed”, as texturas lembram um pouco do P-Funk do Bernie Worrell. Se ligue nas versões alternativas… A dupla de fato dissecou as faixas e entregou uma visão completa sobre os impactos do Techno sob um contexto rítmico criado sob uma perspectiva única.
Essa é pra você que não acredita no futuro do groove. O Wah-Wah deixa seus ouvidos no banho maria.
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