O guitarrista Fábio Leal lançou o primeiro trabalho do Antropojazz. O resultado é de rara beleza e impressiona pela sensibilidade.
A música é um exercício de respeito. Respeito ao tempo, à dinâmica e aos companheiros de banda. É saber ouvir e saber chegar. Sempre com a humildade de aprender e conseguir isolar o ego para trazer apenas a sua própria verdade para dentro de uma sala de estúdio.
É uma visão poética, mas que na verdade é bastante tangível também. Muitas pessoas acham que os grandes instrumentistas possuem – antes de muitas horas de estudo – um talento e uma facilidade quase sobrenatural para extrair exatamente o que almejam, seja de um piano, baixo, guitarra, saxofone – ou um par de panelas – se você for o Hermeto Pascoal.
No entanto, o que muitos não sabem, é que antes de um show, todos esses seres humanos – com anseios iguais aos meus e os seus (hora veja só) – executam um árduo e diário trabalho que é praticamente invisível, mas só até a hora de subir no palco.
Mas o que acontece antes e depois desse momento? Existe todo um trabalho cotidiano, uma entrega devota e fidedigna ao mundo das ondas sonoras modulares.

Fazer música é olhar pra dentro de si diariamente e ver como você é pequeno frente a imensidão das notas. E por mais óbvio que pareça, poucos possuem a sensibilidade de entender isso. De saber – sem piadas infames – que no fim do dia somos instrumentos para algo que é muito maior do que nós mesmos.
Quando comecei a rodar madrugas à dentro em São Paulo, pegando todos os shows de Jazz que conseguia assistir, me lembro que apesar de circular por diferentes casas – do Bourbon ao Jazz nos Fundos, passando pelo Bar do Julinho, Blue Note, Jazz B, enfim – a casa não importava, a única constante é que a conversa sempre chegava no nome do Fábio Leal.
Acho que chamá-lo de músico dos músicos é o mínimo que posso fazer. Pode reparar, a galera do instrumental/Jazz, todo mundo conhece e admira o “Fabinho”, como é conhecido. Ele é citado como referência de professor, profissional, pessoa… É o “Professor Fabinho Leal”.
Nas poucas trocas que tivemos, Fábio sempre tocou mais do que falou. E das duas formas causou impacto. De fala pausada, tenaz e cheia referências, o experiente músico mostra sua sensibilidade na guitarra com a mesma calma, elegância e educação com a qual aborda e mais do que tudo, respeita a música, como ferramenta de expressão
No dia 18 de janeiro de 2021 ele lançou o disco “Fábio Leal & Antropojazz“. Um trabalho soberbo, dono de um sentimento e uma riqueza harmônica digna de nota. Cada uma das 10 faixas do disco de estreia desse projeto deixa uma marca no ouvinte. Cada nota é valorizada, seja nas faixas com grupo ou nos temas solo.
Gravado ao lado de um quarteto de notáveis composto pela voz aveludada de Lucy Brand, o baixo de Sidiel Viera, o piano do cubano Yaniel Matos e a bateria do Cuca Teixeira, o disco é uma masteclass sobre música brasileira, Jazz, respeito e sensibilidade.

Track List:
“Tema dos Deuses”
“Kaguya”
“Preciso Me Encontrar”
“Que Deus Me Deu”
“Olhar de Coruja”
“Atropojazz I”
“Antropojazz II”
“Antropojazz III”
“Alegoria Sonora”
“Caminho de Luz”
Durante os cerca de 41 minutos que o disco se desenrola em seu próprio eixo, a música que sai das caixas é sublime. Por ser o responsável pela banda, espera-se que a guitarra de Fábio esteja sempre em destaque, mas não só ele, como todos os outros nomes envolvidos nesse registro – tocam exatamente o que a música pede, nem mais, nem menos.
Os arranjos promovem conversas com leveza, fluência e dinamismo, enquanto o quinteto destila um vocabulário soberbo e de elevada complexidade – mas que na mão deste time parece conter a simplicidade de uma canção de ninar.
O som é riquíssimo, meticuloso e carrega uma incandescente luz própria. Em alguns momentos a guitarra lidera, em certas passagens é a voz da Lucy que ilumina os caminhos…. Mas todos os elementos aparecem muito bem e cada instrumento é valorizado. A bateria do Cuca parece flutuar no som e alguns momentos você esquece dela, tamanho o encaixe do kit nos arranjos. O baixo é cirúrgico e o piano sempre oferece uma paletas de cores vivas e infalíveis toques da estética afro cubana.
Até a capa do disco é digna de nota. Obra da pintora Katy Martin, o quadro consegue simular as cores que surgirão na sua mente logo após o play. O conteúdo cria e recria diversos climas. Hora embebido em maravilhosas vocalizações da Lucy – como na vibrante “Tema dos Deuses”, do Milton Nascimento – faixa que inaugura e apresenta a rara sonoridade desse lançamento.
Perceba como cada elemento aparece de maneira contundente no som. É tudo muito cristalino e cerebral, mas longe de parecer mecânico e sem vida. Se na primeira faixa, o destaque é a bateria de Cuca, “Kaguya” aparece valorizando a lírica japonesa. Música inspirada no filme “O Conto da Princesa Kaguya” (2013) – animação de Isao Takahata – com trilha de Joe Hisaishi, o tema presta tributo às surreais animações (e por que não mencionar também o monumental trabalho de trilhas) das animações Studio Ghibli. A dinâmica do piano com a cozinha do Cuca e o Sidiel é entrosamento puro.
A forma como o Fábio e a Lucy dialogam é outro ponto essencial para a excelência desse trabalho. Na única versão presente neste que é – sem dúvida alguma – um dos destaques autorais da cena nacional em 2021, a cantora que fica entre São Paulo e Nova York faz uma versão de “Preciso Me Encontrar” – composição do sambista Candeia, eternizada na voz de Cartola – que é dona de um lirismo quase intocável.
E os números solos do Fábio? “Que Deus Me Deu” (Manu Cavalaro) e “Alegoria Sonora” mostram a caleidoscópica visão musical do compositor responsável por este Antropojazz. Sua astúcia tocando a guitarra é assombrosa e nos números solos a abordagem intimista parece colocá-lo na sua frente. Como num show.
A música instrumental carrega esse sabor abstrato e a força dos recursos imagéticos que bailam na nossa mente conforme o som cresce. Em alguns momentos o som surge em compassos intrincados (“Olha da Coruja”), e a sequência de temas – Antropojazz I, II e III – revela um som orgânico e que é impossível de ser ignorado, tamanha precisão na execução.
É um trabalho singelo, musicalmente muito profundo e que valoriza o coletivo. É um daqueles discos que você aplaude depois que termina de escutar. A excelência do trabalho de gravação, mix e master do Adonias Jr. é digna de nota. Esse disco vai ficar nos seus fones por um bom tempo e com certeza lhe abrirá a mente e os ouvidos, sempre valorizando a brasilidade e o groove pra fugir daquele som quadrado, reto, sem alternativas, sabe?
Aqui os caminhos são diversos e assim como todas as minhas conversas pela noite Jazz de São Paulo, todos eles levam ao Antropojazz do Fábio.
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