Elevando o sarrafo, Matéria Prima lança seu segundo disco, o clássico do hip-hop nacional Bem Boombap (2018) com Dario Beats.
A ignorância sobre a força da música negra no Brasil é parte do nosso racismo estrutural, que nos impede de ver como monstros sagrados, nomes que estão ali muito próximos. Candeia, Cartola, Luiz Melodia, Perinho Santana, Carlos Dafé, Virgínia Rodrigues, Leci Brandão e muitos outros, centenas de outros grandes nomes, não chegam no nosso povo com o tamanho devido. Isso ocorre com a história da nossa música desde sempre, e segue ocorrendo com tranquilidade e muitas vezes a culpa da manutenção dessa estrutura é nossa que não buscamos saber mais sobre a história do nosso povo.
Não é difícil perceber em um mergulho na obra do Matéria Prima, o quanto sua genialidade é evidente, em uma breve comparação com outras obras. A pouca atenção de público e imprensa a uma obra tão rica, contando com 3 ep’s, 1 mixtape e dois discos, gera esse efeito de superfície que nos faz não reconhecer como o poeta da raça que ele é. Em 2018, Matéria Prima lançou Bem Boombap com a produção total do Dario Beats, um disco que conta com 13 faixas e um clássico recente od hip-hop nacional. Sem tirar nem pôr, é um disco que se apega a tradição mas que ao se mover nesse exercício eleva o nível do R.A.P. O famoso mas nem sempre considerado ritmo e poesia, conta com treze excelentes exemplos nesse disco.
Em um primeiro momento, lançar um disco como e com o título de Bem Boombap (2018) em plena ascensão do Trap no país, pode ser visto como um manifesto: Tiozão do rap, que também é conhecido como guardinha do hip hop. No entanto, ouvir esse álbum nos faz perceber além da imensa qualidade das rimas e dos beats, que estamos diante de uma carta de amor ao rap, e sobretudo ao hip hop. E nessa medida, não é uma censura ao trap ou a quaisquer outras sonoridades atuais, mas antes, uma narrativa poética dos modos de ser da cultura hip hop que possuem um ethos atemporal. Em tempos em que o mercado dita as regras daquilo que o rap deve ser, onde mc’s incorporam as regras da meritocracia, onde o público branco se mistura e traz um esvaziamento à cultura, é preciso voltar ao começo.
Voltar ao começo não é retroceder, é sobretudo o reconhecimento de uma temporalidade negra que faz coabitar o passado no presente, é uma lição capaz de nos retirar da temporalidade linear que a branquitude nos impõem. Existirão sempre aqueles que são apenas rappers, e muitos vezes eles serão vistos como figuras importantes da música e podem ser. Porém, o Matéria Prima faz parte do seleto grupo de MC’s capazes de nos mostrar o quanto, o trap, o plug, o grime e o drill, assim como o boombap, são criações rítmicas negras que podem estar preenchidas de essência.
Tomamos aqui essência, não como uma categoria ontológica que determina o ser das coisas, mas como um tempero político, estético e ético capaz de dizer a cada vez de modo singular, que a revolta, a diversão e a conscientização negra, são consubstanciais ao hip hop. Ou seja, aqui a essência daquilo que se chama hip hop é entendida como uma construção política, de conduta coadunando certos valores, e construídas temporalmente, não é algo dado por quaisquer instâncias transcendentes, é algo conquistado e partilhado comunitariamente, e o Matéria Prima segue conquistando e compartilhando!
Classudo, incisivo, crítico, inventivo, Matéria Prima segue ao longo dos últimos 20 anos cortando com rigor, todas as arestas de sua arte, indo cada vez mais ao cerne dos problemas. Bem Boombap (2020) é o encadeamento de um exercício que transcende a arte e caminha lado a lado com o seu desenvolvimento pessoal, vida e arte aqui andam juntas e fazem de sua obra uma escola, uma estrutura onde quem entra passar a perceber a sua verdade. Uma verdade que não se pretende universal, que retira de si através de sua poesia ideias, percepções, flows, rimas, cenas, capazes de nos ajudar a seguir firmes dentro dessa cultura!
Único feat presente no disco, Matéria Prima encontra o grande Zudizilla para um música que recebeu um videoclipe a altura um ano depois, em 2019. A faixa contesta com uma força gigantesca o fetichismo branco que se compraz em elevar um ou alguns poucos artistas pretos, dentro de uma cultura prioritariamente negra.
A letra de “Negro” é muito mais do que umas rimas contra o racismo, vai no cerne da industria e dessa patologia acima mencionada que fortalece o racismo, ao gerar uma estimação à alguns MC’s pretos, invisibilizando a grande maioria. O trabalho do excelente dançarino Felipe Soares (Oládélè) captado pelas câmeras do Sonadie San, ilustra com firmeza essas ideias em um audiovisual muito potente em sua semiótica.
Outro petardo incrível presente em Bem Boombap, a faixa Clássico é um braggadocio dos mais históricos feitos no Brasil, porque incontestável. Do Quinto Andar, passando pelo Zimun, fazendo parte do Tetriz, e com uma carreira solo dessa envergadura, alguém realmente acredita que o Matéria Prima não é um clássico vivo do hip hop nacional. A faixa que traz um dos beats mais classudos de um disco totalmente classe A, também ganhou videoclipe e você precisa ouvir/ver!
O trabalho do beatmaker Dario Beats é obviamente um ponto alto do disco, a cama sonora onde o Matéria Prima fabula, projeta, critica e inspira, é fruto de sua lavra, um trabalho finíssimo em alto grau. O disco possui uma sonoridade irrepreensível e esse trabalho do Dario Beats precisa ser mencionado aqui, pois já em Espírito Pt. 2 ele esculacha com samples bem sacados e um andamento que pega na hora. E na hora, você é agarrado pela vontade de ouvir o disco inteiro, em “Bem Boom Bap” o piano e a batida batem uma bola groovadora total, enquanto Matéria segue rimando sobre como era ser rapper no começo de tudo!
Para ouvir com a cremosa ou com o cremoso ou ainda com o cremose, temos o skit “Amor É um” e na sequência a deliciosa “Bunitin” com a marcação da caixa estralando e MAtéria Prima nos convidando a curtir os nossos amores em alta. Pois, o seu universo não é unidimensional, retrógrado e ou de um passado perdido. Antes de tudo, Matéria Prima é um artista que segue empurrando os limites da arte, de sua forma de fazer e da qualidade de sua técnica a frente constantemente. E nesse exercício aqui isso fica muito nítido por todo o trabalho de recuperação da cultura que ele promove, e que faz a cabeça da galera mais aficcionada na golden era.
Ficamos por aqui, neste último exercício de mergulho na obra do Matéria Prima antes do seu novo disco Visão (2020), com a certeza de que se você curte o hip hop, a cultura e o rap enquanto elemento, precisa também ouvir Bem Boom Bap (2018). Um disco com o trabalho do Dario Beats e do MC supracitado que para nós e por tudo até aqui é um clássico!
-Estudando Matéria Prima – Bem Boom Bap (2018) um clássico!
Por Danilo Cruz
Danilo
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