Lançado no Teatro Vila Velha em Salvador o álbum Chega de Chorar de Amor! de Marcela Bellas é o segundo trabalho de estúdio da cantora baiana. A voz de Marcela é de uma suavidade pacificadora! Ouvir Chega de Chorar de Amor! torna-se uma experiência aconchegante, tranquilizadora pela leveza das melodias, acordes e ritmo das músicas. Estes elementos unidos à voz fina, soando quase como um cochicho ao pé do ouvido, fazem da audição do disco um encontro com bons sentimentos. O álbum acalma o espírito mais atormentado botando a cabeça do ouvinte acima das nuvens.
Este clima se fortalece em certos momentos graças a letras inocentes como a da canção I Love Lucy capaz de despir a realidade de todo seu peso e dor “iludindo” nossa percepção por alguns momentos. Esta música faz brotar certa sensação de nostalgia vinda sabe-se lá de que parte da alma. Esses elementos estão presentes com mais vivacidade nessa música, mas perpassam todas as composições do álbum em menor ou maior intensidade.
A faixa de abertura, No Toque, traz arpejos e bends secos de guitarra preenchendo a música enquanto a guitarra baiana de Roberto Barreto (Baiana Systen) passeia livremente num improviso bem compassado. A música cria um clima sensual bem leve, convidando a dançar de umbigo colado em movimentos lentos e íntimos. Vou arriscar e apostar termos diante de nós uma canção inspirada no arrocha, provando ser possível fazer algo criativo com esse gênero tão marginalizado e empobrecido pelas exigências da indústria cultural.
Chega de Chorar de Amor!, música que dá título ao álbum, tem no reggae o gênero que convida a pensar nos pesares de um relacionamento. O acordeom aplica à música ornamentos melódicos responsáveis por enriquecer seu efeito sonoro. Trata-se de imprimir à música, de temática triste, pois aborda a desilusão amorosa, contornos serenos evitando recair numa atmosfera melancólica. Ouvindo com mais cuidado certamente é possível identificar alguma melancolia, mas sem caracteriza-la na totalidade deste sentimento tão dolorido. Nesse sentido Chega de Chorar de Amor! se mostra como uma balada que aborda a frustração amorosa sem causar o efeito melancólico pelo qual somos sugados ao vivenciarmos tal situação. Marcela consegue criar certo descompasso entre a temática e a musicalidade criando um efeito interessante.
A música Telúrica quebra o clima compassado das músicas anteriores introduzindo uma levada funkeada, porém estabelecendo uma cadência menos pegada. Uma audição menos atenta poderia levar à tentação de dar-lhe o rótulo de pop rock. Basta ouvi-la cuidadosamente para se deparar com a incógnita: se pop rock não define bem a música, qual a definição adequada para Telúrica?
Ana Maria é um twistezinho bem desenvolvido por acordes dedilhados e efeitos de guitarra ao estilo surf music. Ritmo gostoso convidativo a dançar e fazer todos aqueles passinhos ao estilo Chuck Berry. Segue o álbum com um cover do Olodum, I Miss Her. A música ganha nova roupagem através do arranjo para o álbum de Marcela. Sem os tambores do Olodum, mas com pegada forte e dançante amparada pelos elementos brutos do arrocha, quiçá do pagode baiano. O trecho falado resgata as origem da gíria “brau”, segundo o texto, palavra de uso frequente nas ruas de Salvador. O significado soteropolitano do termo diz daquilo que é brega, suburbano e sem valor. Contudo ao se fazer um resgate genealógico nos depararemos com sua origem estadunidense. A escolha de uma música do Olodum de forma alguma foi ocasional. “Brown” (que baianizado vira brau) remonta à luta dos negros nos EUA pelos direitos civis e toda estética criada ao seu redor imortalizando a cultura Black Power.
As músicas Acreditei, Amei e Orai colocam a mesma questão anteriormente apresentada sobre Telúrica. Para o encerramento do álbum outra música não poderia receber a honra que não fosse Bar de Bira. O clima de seresta dá o ar da graça e agora a dor do coração partido surge com alguma intensidade. No melhor estilo Carlos Gardel o acordeom constrói melodias que vão e vem dando o tom dramático do tango à esta canção. Nos deparamos com toda atmosfera de um boteco, não esses novos “botecos” surgidos na orla de Salvador, mas os populares, de esquina, onde se vai com o único intuito de ficar bêbado e conversar fiado.
Como se não bastasse toda essa qualidade, o disco ainda pode ser baixado totalmente de graça no site oficial da cantora. Se preferir também pode escutá-lo na integra no Soundcloud. Então tá esperando o quê?
Gravadora: Estúdio Casa das Máquinas
Data de Lançamento: 8 de novembro de 2013
Banda Base: Ricardo Hardmann (baterista), Gabriel Dominguez (guitarrista), Larriri Vasconcelos (baixista) e Tadeu Mascarenhas (tecladista)
Músicos Convidados: Daniel Cohen (guitarra solo em “Pra Longe”, música composta em parceria com Marcela Bellas), Roberto Barreto (Baiana System/ guitarra baiana em “No Toque), Jelber Oliveira (teclado e acordeon em Missy Blecape), Mateus Aleluia (“Orai”)
Carlim
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