Incertezas ao piano: devaneios ao som de Robert Glasper, uma bonita reflexão sobre o poder que a música tem de nos fazer querer escrever!
Estava ouvindo o “Covered” (2016) do Robert Glasper e acabei dando uma bela viajada. Olhando pela janela cheguei a dar um sorriso para a vazia vista das brumas, mesmo que ainda sonolento, deitado no sofá.
Estava tocando “So Beautiful” nessa hora. Inclusive, aqui um parênteses se faz necessário. Esse trampo é uma aula. Gravado ao vivo no Capitol Studios – em trio – ao lado do baixista Vicent Archer e do baterista Damion Reid, o menino Glasper trouxe um rico blend de temas autorais, junto com versões que exploram até o Folk da Joni Mitchell. É cremoso.
Dei uma viajada de novo, desculpa. Eu sei, é foda manter o foco. Mas, voltando… Enquanto olhava as camadas de fumaça translúcidas, pensei muito sobre o prazer inenarrável de escrever sobre música. Isso que me fez debochar um sorriso. Bem ali no groovezinho da frase que o menino Robert bolou em “The Worst”.
Por que eu digo isso? Nesses quase 3 meses de quarentena, pouco tenho escrito sobre o som. Nas vezes que aconteceram foi assim, a música só mandou um salve e as palavras fluíram. Nunca tão bem como o Jazz do trio do Glasper – na apaixonante “I Don’t Even Care”, mas acho que dá pro gasto.
“Intro”
“I Don’t Even Care”
“Reckoner”
“Barangrill”
“In Case You Forgot”
“So Beautiful”
“The Worst”
“Good Morning”
“Stella By Starlight”
“Levels”
“Got Over”
“I’m Dying Of Thirst”
A vibração das notas muda a química cerebral, faz o vocabulário aflorar e valoriza uma das coisas que eu mais admiro na música e na escrita: o improviso. Aquela ideia espontânea, aquele solo que você tinha que estar lá pra ver.
A sinestesia dos beats. A liberdade dos campos harmônicos de “Reckoner”. Essas proezas artísticas na verdade são o puro combustível pra que qualquer letra sambe seus traços no meu papel.
É foda, papai. É música. Imagina só 2 grooves, os 2 na reta à 80km/hora. É difícil não abrir um sorriso. É como o Jazz, apenas acontece, mas tem hora que externalizar a ideia parece até doloroso. Mas é o desafio que faz o escriba questionar o papel em branco, assim como Glasper questiona convenções e fórmulas, enquanto revela a beleza de seus infinitos particulares em “Barangril”. O piano canta. Conversa com o baixo e revela uma interação quase poética com o pulsar rítmico. Intrincado em “In Case You Forgot” e magistral na já citada “Só Beautiful”.
Nesse take em particular (“So Beautiful”), as notas do marfim malhado parecem gotas deslizando numa janela. Suaves, plenas e sensíveis, elas apostam corrida, enquanto Robert parece ter todo o tempo do mundo.
É um sopro de ar fresco em “Good Morning”. A valorização das harmonias de “Stella By Starlight”, a absolutamente inebriante versão de “Levels” e um pico criativo que parece nunca atingir o cume. Nem mesmo com o tema de Harry Belafonte, no tributo de “Got Over”.
O “Covered” é um disco bastante introspectivo, mas também desarma o ser humano ou neste caso, o ser ouvinte. Depois que o disco acaba – após o silêncio de “Im Dying Of Thirst” – o que fica é um sentimento de acalanto bastante genuíno, capaz de nos despertar e fazer até um mero meliante rabiscar caracteres após dias de incerteza e incomensurável dúvida.
Eu, diferentemente de Glaspinho (para os íntimos), não toco teclado. As teclas que batuco são outras. Em muitos casos surgem frases soltas nas bordas do meu caderno, mas em comum com todos esses meios, temos o mesmo objetivo e a mesma paixão por valorizar a liberdade, a nossa própria verdade e o nosso próprio tempo.
Sorrir é inevitável, mesmo em tempos de cólera.
-Incertezas ao piano: devaneios ao som de Robert Glasper
Por Guilherme Espir
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