A Trilha Sonora da Revolução, filme de 2008 é uma excelente peça para nos mostrar a importância da música nas lutas por direitos dos negros!
O documentário Soundtrack for a Revolution, lançado em 2009 e dirigido por Bill Guttentag e Dan Sturman, é uma excelente pedida para quem deseja saber mais sobre o movimento de direitos civis que ocorreu nos anos 60 nos EUA. Nesse filme nós conseguimos descobrir o quanto a música foi essencial para o desenvolvimento da luta, e mesmo para a sobrevivência de homens e mulheres negras nos EUA, e por extensão em toda a diaspora africana.
Na medida em que acompanhamos a obra, progressivamente vamos percebendo como a música negra diaspórica possui infinitas camadas de interpretação, na sua pungência estética, mas sobretudo como essa é sempre reflexo de uma política existencial. Para compreendermos sua importância hoje, é necessário passar pelo entendimento da sua potência, que aqui sofre o recorte do Movimento pelo direitos civis.
Dos campos de trabalho, passando pelas igrejas e chegando aos centros urbanos, a música negra: Gospel e Blues, ajudou a alicerçar toda a história dos negros naquele país. E esse trajeto está de algum modo subentendido ao longo da fita, que não busca as raízes da música negra, apenas se conformando em mostrar seu efeitos no contexto referido. Depois da recusa de Rosa Parks em se ceder o seu lugar a um branco nos ônibus segregados de Montgomery, desencadeia-se um boicote histórico aos ônibus que durou exatos 365 dias. A luta anti-segragacionista é a partir daí desencadeada e Martin Luther King, que estava na cidade terminando sua tese assume a liderança do movimento.
O filme vai nos narrando os acontecimentos históricos, os principais personagens envolvidos, mas sobretudo, nos insere dentro do contexto apresentado através da força das músicas que então eram entoadas. Com depoimentos de figuras muito importantes e que lutaram naqueles dias, o filme constroi uma narrativa histórico-musical e ao mesmo tempo nos faz descobrir o quanto as músicas utilizadas nas manifestações, nas reuniões ou mesmo quando manifestantes eram presos e cantavam nas celas, eram ali um instrumento vital para a luta. Eram vitais para a luta e para a resistência diante de toda a opressão extremamente violenta que as ações de cunho pacifista, sofriam. E talvez esteja aí, a grande novidade que essa narrativa desenvolvida pelos diretores alcance, pois seu maior poder de atração está em mostrar que as músicas que ali eram entoadas coletivamente, não eram meros acompanhamentos.
Além, do farto material de arquivo e dos depoimentos de quem viveu intensamente aqueles momentos de luta por direitos civis que eram amplamente negados aos negros no sul dos EUA, a produção busca atualizar essa herança. E para tal, convoca uma boa seleção de músicos atuais para releituras das canções clássicas do movimento pelos direitos civis.
Com figuras como Wyclef Jean, Joss Stone, The Roots, John Legend e o grande Richie Havens, somos apresentados a novas versões de velhos clássicos. Somos também levados a pensar na necessidade de sempre atualizar nossos conhecimentos sobre a nossa história, mas também de atualizar hoje, novos cânticos e músicas de luta coletivamente reconhecidas. A música gospel se mostra naquele período a liga, a substância capaz de dar forças a toda uma camada da população americana que reconhcia a opressão racial como um dos fatos mais odiosos daquela sociedade.
Hoje, aqui mesmo em nosso país, temos diversas músicas que protestam contra o atual sistema de coisas, e de algum modo não conseguimos cantar juntos, as velhas palavras de ordem não dão mais conta, estão velhas. Precisamos hoje, criar a nossa trilha sonora para uma revolução, não sabemos quais as músicas, não temos muitas vezes nem ideia de qual revolução queremos, mas o nosso tempo clama por um novo som, e pela invenção de um povo capaz de se reconhecer coletivamente nessas melodias, numa harmonia…
Danilo
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