D4CRVZ soltou a mixtape O Menino Gabriel elegantemente sujo, com 17 faixas o trabalho é uma excelente oportunidade de adentrar o underground
O ambiente do rap nacional é um dos poucos em que a palavra “sujo” significa um elogio. Em uma perspectiva de mercado, que cada vez mais toma conta da arte, a sujeira não é algo bem vindo. A menos que seja aquela “sujeira” meio polida que agrada a um público pseudo-cult, disposto a pagar 100 reais em um ingresso pra um show no Circo Voador.
Ofuscada por essa sujeira cenográfica existe a real, intrínseca às condições, ao conteúdo e ao estilo de produção dos beatmakers, produtores e MC’s underground espalhados pelo Brasil, como é o caso do som do D4crvz, que felizmente chegou até mim. Eu conheci o trampo dele através do Danilo, daqui do Oganpazan, um amigo baiano que a internet me deu. O disco chegou em .wav e já me deixou assustado (Manda em mp3 mano, 500 Mb de áudio é foda!). E o mais surpreendente é que o D4crvz é daqui do Rio de Janeiro, da Baixada Fluminense assim como eu, e cola com vários MC’s que eu gosto de ouvir, como o Lessa Gustavo e a Nabru, que participam do disco.
Essa distância entre público e artistas é um problema no underground que talvez derive do fato de não haver um nicho bem estabelecido com uma estrutura sustentável de divulgação, casas de show e etc, como ocorre nos EUA, o que leva a um grau de dificuldade maior para encontrar os artistas e, consequentemente, a um tempo despendido do qual a gente nem sempre dispõe. Por isso, quando nós encontramos artistas como o D4crvz sentimos a necessidade imediata de escrever sobre eles e compartilhar com outras pessoas seus trabalhos. Foi esse exatamente o sentimento que eu tive quando acabei de ouvir sua Mixtape, a Menino Gabriel, e abri o doc no google drive pra começar a escrever.
Outro lugar em que a palavra sujo tem certo grau de importância é na literatura. No século XX alguns escritores ressignificaram o fazer artístico através da poesia ou da prosa suja, marginal. Bukowiski, Nelson Rodrigues, os beatniks e os adeptos do realismo sujo foram alguns dos expoentes, no Brasil e nos EUA, dessa intenção de fazer arte despida de pompa, de forma crua, simples, curta e acima de tudo verdadeira, sem a necessidade de tocar de forma explícita nos grandes assuntos da humanidade, mas falando de si e, por consequência, dos outros. O erotismo característico de muitos desses autores não está presente no disco do D4crvz ou no rap underground brasileiro, mas as outras características ditas acima com certeza estão.
A mixtape do D4crvz foca bastante nele mesmo. Ele aborda temas simples e corriqueiros da sua infância e crescimento como em Bike Azul, O Trem Azul do D4crvz e do Ericbeatz, ou em Dia no Dentista, do qual ele aparentemente não gosta muito porque a letra tem um tom meio kafkiano que me lembrou bastante uma passagem d’O Processo em que o personagem do livro procura por um advogado em um prédio claustrofóbico e deprimente.
Seja na vivência no seu Bairro, nas dificuldades ainda moleque indo pra escola ou nas relações amorosas, o que ecoa na mixtape do D4crvz é essa identificação que nós sentimos, porque em nós há muito da vida dos outros e consequentemente um pouco da vida do D4crvz. A questão é que me agrada muito mais sentir essa identificação a partir de algo genuíno, e talvez não intencional, do que através de algo pensado para me atingir.
Essa noção de escrever sobre o que é aparentemente corriqueiro, de colocar a vida no papel e não necessariamente escrever pensando no público, é algo que me chama muito a atenção porque está implícito nessa visão que a escrita surge como uma necessidade de se expressar artisticamente e como uma forma de terapia, ou como diz o artista “Parece que eu só escrevo quando estou no abismo”. É escrever para não enlouquecer.
As participações e produtores são muitos, mas vale a pena citar todos porque isso é mais uma prova do quanto os artistas no underground se gostam e se ouvem. O disco conta com as participações de Nabru, Lessa Gustavo, Duvô, Peagá e Matheus Coringa. As produções ficam por conta do GVTX, Godjira, De Sá, EricBeatz, Solitélico, SONO TWS, Loratadina, Sergio Estranho, R. A. Beats, CIANO, Babidi, Nobrv e L v k s. Os beats desse disco enchem os ouvidos de quem curte uma sonoridade mais minimalista. Ao ouvir cada batida a vontade que dá é de, ao acabar disco, abrir o Soundcloud de cada beatmaker e viajar nas batidas.
Os instrumentais do disco casam bem com cada conteúdo abordado, criando uma ambientação que encaixa com o timbre grave do MC e trazem uma atmosfera, como no caso de Dia no Dentista em que as batidas ecoam e criam essa sensação de incômodo e suspense que o conteúdo da letra pede. Outros beats que me agradaram bastante foram o da faixa 11, Intropatia, com participação da Nabru, por causa do sample de Topázio do Djavan, do disco Meu Lado, um dos meus discos preferidos, e da faixa Contra Fluxo, com um sample, ou synth (não identifiquei), cujas notas se esticam de forma lenta pelo beat em contraponto à batida e o flow acelerado do MC . Foi o que eu disse acima sobre a identificação não planejada e os detalhes aparentemente simples que importam muito.
A Menino Gabriel Mixtape com certeza vai tocar nos meus fones por muito tempo. Nós estamos nos deparando com uma geração de MC’s, produtores e beatmakers de grande qualidade artística, umas das melhores e mais diversificadas gerações do Rap Nacional, basta abrir os olhos pra enxergar a grandeza dessa cena emergente, sair do raso e mergulhar fundo na nossa cultura. Motivos não faltam e a nova mixtape do D4crvz com certeza é um deles.
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