Os contos épicos de Kamasi Washington foram prejudicados, uma noite frustrante pra quem esperava poder ouvir e ver bem o jazzista americano!
Pra muita gente o Kamasi Washington foi um cara que apareceu do nada. Após o lançamento de seu terceiro disco de estúdio – o elogiado “The Epic”, liberado em 2015 – o saxofone tenor de um dos maiores compositores do Jazz contemporâneo, teve seu groove escancarado para o mundo.
O que pouca gente sabe é que antes de todo esse reconhecimento, o saxofonista já estava na batalha há muito tempo. Sua carreira solo começou em 2007, quando seu Black Power lançou “The Proclamation”, de maneira totalmente independente. No ano seguinte, ele liberou o “Light Of The World” – novamente sem selo – e depois que o “The Epic” saiu (via Brainfeeder), Kamasi encontrou seu lugar no olimpo mainstream do Jazz e não saiu desde então.
Pode pegar todos os lançamentos que vieram depois de 2015, desde o EP “Hamony Of Difference” (liberado via Young Turks em 2017), assim como o “Heaven and Earth” (que saiu em 2018), fica claro como ele encontrou sua abordagem. Com um repertório que consegue colocá-lo ao lado do Kendrick Lamar e do George Duke sem prejuízo algum para o Jazz em termos de linguagem, o americano transita na cena com uma liberdade musical invejável.
Não importa qual seja o projeto, mesmo fora da carreira solo, Kamasi mostra como um dos segredos do seu som é justamente a versatilidade. Em 2004, por exemplo, ao lado do Cameron Graves (piano), Thundercat (baixo) e Ronald Bruner (bateria), Kamasi surgiu ao lado do Young Jazz Giantes com um Jazz mais tradicional, só que ao analisar sua contribuição no “To Pimp a Butterfly” (2015) do Kendrick ou no “You’re Dead” (2014) do Flying Lotus, nota-se claramente como existem diversas aspirações em seu hall de influências.
Seja ao lado da Gerald Wilson Orchestra ou do interessantíssimo projeto de Fusion, vulgo Throttle Elevator Music, Kamasi mostra o tamanho de sua musicalidade. Sempre priorizando a improvisação, longas suítes e formatos diferentes para explorar a dinâmica do som, o negrão chegou em São Paulo e subiu ao palco da Audio Club para sacramentar a sua segunda turnê em solo nacional.
Vale lembrar que Kamasi veio para o Brasil em 2017, como uma das principais atrações do Nublu Jazz Festival, mas dessa vez a coisa foi diferente, bem diferente. Nesse primeiro show, o meliante veio com um repertório cheio de Funk – mandando até sons do Marvin Gaye – além de algumas composições do “The Epic”, mas o roteiro mudou bastante de lá pra cá.
Nessa segunda passagem, Kamasi priorizou seus lançamentos mais recentes, principalmente no que diz respeito ao “Heaven and Earth”, mas diferente do que show do SESC Pompéia – onde o som estava primoroso – o show na Audio Club foi visivelmente prejudicado pelas oscilações de volume, principalmente no microfone da Patrice Quinn, além do embolado som proveniente da dupla de baterias (Tony Austin e Ronald Bruner) que o meliante trouxe para o Brasil.
Todos músicos de altíssimo gabarito, o baixista Miles Mosley e o tecladista Brandon Coleman só não fizeram chover. Miles tocou seu baixo acústico no melhor estilo rabecão até com arco e o sinth do Brandon estava com um timbre animalesco, além do sax de Kamasi que mantiveram o mínimo de constância, de resto, foi difícil acompanhar as duas horas do espetáculo.
A Audio Club não é um lugar famoso por receber shows de Jazz, muito pelo contrário. As baterias estavam visivelmente uma mais alta que a outra e com a experiência de quem andou pela casa, procurando um lugar com um som mais estável, digo que em cada canto da estrutura o som vinha de um jeito, algo que definitivamente atrapalhou bastante a experiência, pois o músico já estava com uma banda em formato reduzido.
Vale lembrar que ele veio com duas baterias, baixo, teclas, trombone, sax e voz. O único problema é que pra recriar as complexas ambiências de cordas de seus discos, uma banda mais compacta só faria sentido com um sistema de som bem alinhado, por que talento pra recriar esses temas a banda do Kamasi possui e ele está excursionando assim desde o lançamento do disco.
A questão é que até o groove ficou prejudicado. A primeira hora do show teve bastante espaço pra dançar ao som do Funk, mas conforme o repertório chegava com temas mais detalhados, era bem difícil acompanhar as improvisações por que o som embolava demais. E o resultado? Versões pouco inspiradas para temas belíssimos como “Truth”, “Fists Of Fury” e “Re Run”.
Foi difícil chegar ao fim do show e perceber o quanto se perdeu, mas acho que uma coisa é certa: a Audio Club não deve receber esse tipo de evento. A casa não comporta e por mais brilhante que sejam os músicos acima do palco, não existe milagre sem um som de qualidade. Triste, para dizer o mínimo.
Saca o meliante ao vivo nessa performance:
Sobre o autor:
Guilherme Espir segue imerso no groove – o tempo todo – a missão é sempre extrair visões derretidas do som, com o objetivo de apresentar cozinhas diferentes para ouvidos em busca de novas experiências sinestésicas.
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