A Aids, o Pop e a repressão comprometiam os roles da galera no final dos 80 e início dos 90. Passados 30 anos só a aids não é mais um entrave ao nosso divertimento. Confira a versão de Irmão Calos e Ivan Motossera cheia de swing para esse clássico dos Ratos de Porão.
O álbum Brasil (1989) dos Ratos de Porão completa 30 anos em 2019. Vivemos um momento político em nosso país que dá contornos ainda mais atuais ao disco, cuja tônica, como vemos nas letras das faixas, está justamente na estrutura social brasileira e o modo como os governantes nela interferem afetando radicalmente nossas vidas.
A faixa Aids, Pop, Repressão traz já em seu título três pilares de profundo incomodo para quem viveu a década de 80, as bandas de pop rock nacional dominavam rádio e tv, a aids comprometia um dos principais divertimentos dos quais os jovens quebrados podiam desfrutar, o sexo, e a repressão, que havia tecnicamente chegado ao fim alguns anos antes, mas que ainda era praticada com muito vigor pela polícia militar, resquício da ditadura, Brasil afora. Uma atualização desses tópicos que afetam diretamente nossas vidas nos levaria à substituir a aids pelos pacotes das reformas políticas que vem sendo adotadas desde o Golpe de 2016. Agora podemos ao menos fuder, dirão os otimistas de plantão, enquanto fodem nossas vidas. Nossos demônios podem ser exorcizados pelo gozo! Amém!
Não nos preocupamos com a aids, mas nos preocupamos com a perda de direitos básicos para manutenção de nossa existência enquanto cidadãos. Contudo, passadas 3 décadas ainda nos preocupamos com a capitalização da cultura pela Indústria Cultural que segue se apropriando de todos os movimentos culturais, sociais, musicais e os transformando em mercadoria de rápido consumo.
E o que é pior, lidamos com uma repressão que se intensifica na medida que o ministro da “justiça” lança um pacote de leis que altera cláusulas pétreas da constituição federal e dá carta branca para que a polícia brasileira, uma das mais violentas do mundo, possa matar sem se preocupar com consequências legais. Lavagens cerebrais via canais de youtube e correntes de fakenews por meio do whatsapp se encarregam de formatar mentes direcionando repressão simbólica a todxs que não compartilham da visão de mundo reprimida e repressora do atual governo. Isso quando não recai sobre o mundo concreto e vitima pessoas fisicamente.
Numa cidade como Salvador, cuja maioria esmagadora da população é negra e onde chacinas como a ocorrida no Cabula em 2015 são praticadas e os responsáveis inocentados num tribunal, com direito a passada de pano do governador do estado, pertencente a um partido de centro esquerda, Aids, Pop, Repressão carrega forte imagem representativa e combativa.
Assim, a versão feita dessa música através da parceria entre o grooveman Irmão Carlos e os irmãos Gagliano da pysicho Ivan Motosserra Surf & Trash ganha um sentido ainda mais icônico. Certamente a intenção da escolha desta música, caso não tenha sido levada pela consciência, teve ali por detrás o trabalho do inconsciente dessa galera apontando para essa música especifica, disponível a seus olhos entre tantas outras já clássicas do repertórios dos Ratos.
Não bastasse o acerto em cheio na escolha da faixa para esse clipe, que faz link direto com a realidade atual que encaramos no país, os caras surpreendem ao fazerem um arranjo extremamente groovado para a música, dando um tipo de movimento que a versão original dos Ratos sequer nos permite vislumbrar. Pedro Gabriel constrói linhas de baixo bem envenenadas de funk e aquele som originalmente direto, nervoso, agressivo e rápido, ganha uma dimensão leve e cheia de contornos lascivos.
Claro, isso se deve a Irmão Carlos, a parte cheia de swing da parceria. Porém, este é obrigado a ceder ao gosto dos punks e aos poucos dissolver a aura funkeada e mergulhar de cabeça na explosão insana do hardocore e findar o clipe à queima roupa. Surpreendente e ao mesmo tempo deliciosa, essa versão aponta para um horizonte de uma parceria mais íntima entre Irmão Carlos e Ivan Motosserra Surf & Trash?? Fica a pergunta no ar.
Confira à perfomance ao vivo dos Ratos de Porão de AIDS, POP, REPRESSÃO:
Carlim
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