Rashid e Emicida lançam novos single com seus respectivos videoclipes na mesma semana, dando ainda mais vibração ao mês de setembro!
Muito do que acontece hoje em termos de inovação na forma de se fazer rap no Brasil passa por Emicida. Parece que o propósito do rapper ao compor suas músicas está em atingir sempre um patamar que trará o diferencial com o trabalho anterior. Em O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013) acrescentou elementos da chamada MPB e do samba para seus “raps”, alcançando resultados interessantes ao usá-los inclusive para moldar seu flow a partir das melodias próprias desses dois estilos musicais. Representou tanto em termos de inovação que muitos rappers se enveredaram por esse caminho.
Este processo continuou em seu segundo álbum Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa (2015) quando passou uma temporada na África buscando inspirações através da imersão na cultura local. Resultado, trouxe elementos de ritmos constituintes de Angola e Cabo Verde para energizar o discurso empoderador do álbum.
Em Língua Franca (2017) se uniu a Rael e aos rappers portugueses Capícua e Valete realizando a conexão com Portugal, trazendo o sotaque lusitano e sua musicalidade pouco conhecida por nós brasileiros, para nova combinação inusitada. Em Oásis Emicida realiza outra ponte musical, dessa vez com o cantor estadunidense Miguel, um dos nomes de peso da atual geração da black music estadunidense.
Oásis explora o swing quente da soul music e toda sua potencialidade que vai desde a cadência sensual até a atmosfera intimista que gera. Criou-se o suporte musical perfeito para o conteúdo da letra que narra situações do cotidiano que geram preocupação, cansaço, tornado a existência pesada como um fardo. Contudo o alívio é atingido permitindo o relaxamento pós momentos difíceis. Daí a metáfora do Oásis, a zona fértil em meio à imensidão desértica onde o viajante encontra condições para se aliviar do cansaço, da sede e da fome.
“Um oásis é deitar a cabeça no colo da minha preta” verso que traz uma analogia usando uma situação cotidiana que faz relaxar, atenuando toda carga acumulada ao longo do dia. Assim como a imagem do lar, do acolhimento é feita em “Cê dizer: “Mi casa, su casa”” , quebrando a tensão e mostrando haver esperança em meio ao deserto de dor.
O roteiro do videoclipe nos conta uma história marcada pela dificuldade, a jovem mãe e sua filha, saindo para enfrentar os percalços de mais um dia. Ter que deixar a filha com a avó para encarar a jornada de trabalho, enfrentar o deserto, para então ao fim do dia, encontrar o seu Óasis nos momentos de lazer compartilhados com a filha. Bem amarradas as imagens da letra e do roteiro, para esse rap/ soul do Emicida, que esperamos, seja o sinal de que algo maior (talvez um novo álbum) nessa vertente ainda está por vir.
Ficha técnica música:
Compositores: Emicida, Dj Duh, Dudu Marote e Miguel
Intérpretes: Emicida e Miguel (artista gentilmente cedido por RCA records, uma divisão da Sony Music Entertainment)
Produzido por Dudu Marote e DJ Duh
Mixagem: Mauricio Cersósimo no Estudio Eiffel e Dudu Marote no estúdio La Cocina
Masterização: Mauricio Gargel
Assistente de Estúdio: Tofu Valsechi
Direção artistica: Evandro Fióti e Emicida
Produção executiva: Evandro Fióti e Raissa Fumagalli
Gravadora: Laboratório Fantasma
Distribuição: Sony Music
Obs.: Ficha técnica completa no youtoube.
Certamente Rashid figura entre os os rappers mais criativos da geração dos anos 2000. Suas rimas são construídas habilmente, trazendo histórias cotidianas, narrando acontecimentos e vivências de personagens particulares mas que expressam a vida da coletividade. Cronista afiado, Rashid explora todos os recursos da língua construindo imagens vivas daquilo que narra.
Outra característica interessante na versificação do Rashid está na maneira sútil como ele usa a história para discutir temas políticos e sociais, como o machismo, o racismo e a desigualdade social. Ele não o faz diretamente construindo rimas cuja abordagem está em discutir esses temas “teoricamente” ou de forma panfletária. Esses temas fazem parte da história contada em cada letra como ocorre em A Fila Anda do álbum Confundindo os Sábios (2013). Nessa música fala sobre a mulher que se impõe a fim de ter consolidada sua liberdade sexual e o quanto o machismo tenta oprimir aquelas que assumem essa postura, geralmente direcionando termos pejorativos como “trepadeira” a mulheres que assumem afirmam essa condição. Rashid mostra o machismo nos julgamentos e ações direcionadas a esta mulher, que na letra enfrenta de frente esses problemas.
O novo single Sem Sorte traz uma crônica sobre o próprio Rashid. Ele brinca com a superstição que exprime a ideia segundo a qual as coisas acontecem em nossas vidas dependendo de possuirmos ou não sorte. Daí a ironia presente no título, que busca desconstruir essa máxima moral que torna o indivíduo refém do acaso, incapaz de moldar sua própria história.
Rimando sobre sua trajetória empreendida à custa de muito trabalho e dedicação, suas conquistas são conseqüência desse ethos que assume e dispensa a sorte. Indivíduos não precisam de sorte, podem estar completamente sem ela, precisam sim ralar para construir seu legado e atingir seus objetivos. Que Rashid siga nessa falta de sorte tremenda, porém continue mantendo acesa a chama que o mantêm produzindo e realizando seus projetos musicais.
Ficha Técnica (MÚSICA)
Letra/Voz: Rashid
Produção: DJ Duhh
Vocais: Camilo
Ficha Técnica (VÍDEO)
Direção e Roteiro: Moysah
Edição e Finalização: Moysah
Ass Direção: Renato Piri e Camilo Santa Helena
Videografismo : Thiago Marcondes
Câmera: Moysah, Renato Piri e Camilo Santa Helena
Agradecimentos: Ronald Rios, Gomídia e Parque Marisa
Carlim
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