Whiplash – Em Busca da Perfeição

whiplash-posterSer babaca, bunda mole, em nada impede o desenvolvimento de habilidades sejam artísticas, técnicas, intelectuais ou o que mais possamos listar. A história da humanidade está recheada de bundas moles geniais naquilo que se propuseram fazer durante a vida. Whiplash: em busca da perfeição conta a história de dois bundas moles, cada qual à sua maneira.

Um é adolescente, imaturo, ainda não entrou na casa dos 20. Por isso considero importante dar um desconto pra ele. Seu sonho consiste em ser uma lenda do jazz. Baterista, anseia ser o próximo Buddy Rich e está disposto a sacrificar a vida pessoal para tornar esse sonho realidade. O outro um regente perfeccionista e exigente, pianista, professor do departamento de música da melhor escola de música dos States o Conservatório Shaffer e está à frente da melhor orquestra de jazz desta instituição, a Studio Band. Pra esse cabe unir a pecha de maluco/sádico à de bunda mole. Sua meta, vejam só, consiste apenas em produzir o próximo Charlie Parker. Se este sujeito não merece ser considerado um panaca completo por alimentar tal meta não sei mais a quem chamar de panaca.

Dito isso podemos encontrar o fio condutor do filme, que consiste em saber se há um método para a formação de gênios. Provavelmente não é preciso assistir o filme até o final, melhor, nem sequer precisamos assistir ao filme pra obter a resposta, no fundo bastante simples e direta: NÃO HÁ! A proposta não está em responder tal questão, mas na ilusão alimentada por Fletcher (J.K. Simmons) de ser possível respondê-la positivamente.

Segundo o ambicioso regente/professor, para se “fazer” um gênioWhiplash-6613.cr2 basta seguir um determinado método. Fletcher acredita piamente ser possível “fabricar” gênios, basta despertar em seus músicos a necessidade de buscar a perfeição técnica em seu instrumento. Bom, certamente você está se perguntando: mas não é isso que se espera de um professor? Sim, porém o método adotado por Fletcher para motivar seus músicos é bastante questionável; pra dizer o mínimo.

Não há dúvidas de que o roteiro despertará a indignação dos amantes do jazz, pois a ideia de haver uma receita para produzir charlies parkers chega a ser insuportável tamanho o absurdo que representa. Porém, somos seduzidos pela dedicação de Fletcher na busca da perfeição de sua banda, e mesmo pela busca da concretização de seu delírio, que se constitui como tal apenas para o espectador.

Desse ethos surgem os conflitos pessoais de Fletcher consigo mesmo, com a banda e claro, com Andrew (Miles Teller), o baterista citado no início. A construção da trama entre Fletcher e Andrew nos proporciona as melhores cenas de luta (isso mesmo, vocês leram corretamente, DE LUTA!) quem sabe, das últimas décadas no cinema. Há uma guerra em andamento, batalhas são travadas entre Fletcher e Andrew do primeiro ao último minuto da história. Essas batalhas se dão no campo moral, psicológico e físico num jogo de nervos coroado com a clássica batalha final entre Andrew e Fletcher. 

Whiplash contado por sua trilha sonora

whipO auge do filme é o confronto final entre Fletcher e Andrew, quando ambos vão botar os pingos nos is para saber quem deu a volta em quem. A partir desse desfecho conseguimos ter um olhar mais atento sobre o aspecto musical do filme que constitui o arranjo de fundo para o desenvolvimento da trama e o conflito entre os personagens. Buscando olhar apenas o aspecto musical do longa, percebemos a força do jazz bem como a importância da musica orquestral dentro desse estilo musical.

Uma discussão possível nesse sentido recai sobre o papel das Big Bands na música americana contemporânea. Aos leigos parece ser uma vertente do jazz datada, perdida no passado desse gênero que junto com o blues são a matriz de todos os gêneros musicais nascidos nos EUA. Contudo, a trilha sonora do filme nos mostra a atemporalidade da música revelando as transformações pelas quais o jazz orquestral passou ao longo do século XX. Os arranjos de Whisplash e Caravan passaram pelas mãos de Justin Hurwitz e Tim Simonec, ambos responsáveis pela trilha sonora original do filme, dando ar moderno às músicas e ressaltando a importância da bateria nessas duas composições em particular.

Surge outro aspecto marcante do filme, compreender a importância de um dado instrumento para a execução da peça. Tanto Whiplash quanto Caravan são peças feitas para o baterista. A responsabilidade de um desempenho de excelência da banda ao executar essas músicas passa pela responsabilidade do baterista em fazer a sua parte com perfeição. Nesse sentido a escolha das peças para retratar a vida de um baterista não podia ser melhor.

A cena do filme em que Fletcher reveza os bateristas durante o enCinemascope-Whiplash-Em-busca-da-perfeição-3saio da banda para decidir qual deles merece a música Caravan, mostra quão importante é o papel do baterista nesta música. Esta é, sem dúvida, uma das músicas icônicas do universo popular da musica norte americana, composta por ninguém menos que Duke Ellington, Irwing Mills e Juan Tizol, mas eternizada pela orquestra do primeiro. Devido a recorrência constante a Caravan e a performance de Andrew dessa música ao final do filme, me permito a ousadia de discordar do título do filme e considerar o título Caravan mais apropriado.

Whiplash é uma música fantástica, de andamento pujante e rápido, com ataques precisos, incisivos dos naipes de metal, corridas das palhetas bem ao estilo da própria Caravan. Porém a importância desta no contexto musical dos EUA é muito maior. Até porque Duke Ellington cria uma nova forma de composição, uma nova forma de orquestração responsável por modernizar a sonoridade das big bands, dando a elas um ar mais urbano, noturno. Sem Caravan, Hank Levi jamais comporia Whiplash; só isso. Achei pouquíssimas informações sobre Hank Levi, inclusive não encontrei a data em que Whiplash foi composta ou qual foi a primeira big band a grava-la. Procurando gravações da música encontrei o álbum Soaring de 1973 do band leader Don Ellis como sendo a gravação mais antiga da música.

Voltemos à trilha sonora de Whiplash e ao nome de Justin Hurwitz. Infelizmente são poucos dados na internet sobre esse jovem compositor e arranjador. Conclui ser jovem apenas pela foto, já que dados biográficos básicos como a data de nascimento não estão na net, nem no IMDB, nem no All Music Guide. Além dos arranjos de duas músicas já consagradas (Caravan e Whiplash) há composições originais, feitas para o filme que conduzem a história.

A primeira delas no set list da trilha sonora oficial é Overture, uma peça ao estilo Caravan. Orquestração impecável, estrutura rítmica pulsante, diálogo entre palhetas e metais convergindo o tempo todo para um frenesi quebrado por uma pausa na execução destes naipes, restando apenas os instrumentos harmônicos e percussivos. Constrói-se assim a conjuntura necessária para os solistas fazerem sua parte, finalizando com o solo de bateria de Andrew regido por Fletcher.

Outras músicas fazem parte da trilha original do filme compostas por Justin Hurwitz. São elas: When I Wake, Casey’s Song, Fletcher’s Song in Club, No Two Words. Há uma curiosidade sobre When I Wake. A música é tocada na pizzaria onde Andrew leva Nicole, a balconista da lanchonete do cinema. Eles estão conversando e comendo pizza enquanto a música é tocada ao fundo.

Aí vem a curiosidade, Andrew diz o nome da música e Nicole não entende porque ele a diz. Daí Andrew informa que a música foi composta por Jack Hill no dia 17/07/1938. Procurei informações sobre o tal Jack Hill e do baterista Bob Ellis, que segundo Andrew está executando a bateria naquela gravação. Consultei o All Music Guide e o Google (que considero ser o melhor site de referencias musicais da internet), e pasmem, não há qualquer informação sobre um compositor de jazz chamado Jack Hill. Fiquei com a pulga atrás da orelha e não consegui deixar de pensar que há algo por traz desta data. Nos créditos da trilha sonora de Whiplash a composição é creditada à Justin Hurwitz. Fica a pergunta: porque essa informação fake foi inserida no filme?

Casey’s Song, embora não tenha pWhiplash-5570.cr2or traz algo misterioso e seja comprovadamente (assim como as demais composições aqui discutidas) feita para a trilha original do filme, não deixa de ter uma participação incisiva na trama. Ao adentrar a sala de ensaios, Fletcher apresenta um semblante incompatível com sua personalidade. Cabisbaixo, sorumbático, ele vai ao cd player e ouve-se o som de trompete tocando magistralmente uma melodia lenta, ornada por uma atmosfera intimista e reflexiva. A música dá à cena seu tom dramático, insere novo elemento á história e um caminho secreto só desvelado adiante. Fiquem atentos à história de Casey contada por Fletcher ao som dessa música, pois desempenha papel fundamental no filme daí em diante.

Ao ouvirmos Fletcher’s Song in Club, nos deparamos com mais uma faceta de Fletcher. Saí de cena o regente/professor dando lugar ao pianista. Passando em frente a um daqueles clubes noturnos de jazz nova-iorquino, Andrew vê uma placa anunciando um convidado especial para aquela noite, trata-se de Terence Fletcher. Diante de tal oportunidade resolve entrar deparando-se com seu antigo professor ao piano acompanhado por baixo e bateria. O som latino, bem ao estilo Buena Vista Social Club invade seus (nossos) ouvidos e o (nos) leva a contemplar a performance de Fletchar ao piano.

Andrew é seduzido pela música, assim como nós espectadores, e se admira ao ver mais um lado desconhecido do despótico Fletcher. No palco, ao piano, Fletcher sorri, interage com a música, reagindo constantemente a cada nota, a cada acorde executado. Ele toca No Two Words, outra composição de Hurwitz que, confesso, não identifiquei ao longo do filme. Assim como When I Wake, trata-se de uma música que traz a tona o tempo do jazz governado pelo swing. Não há como deixar de fazer referencia à década de 30.

Assim, Whiplash triunfa não apenas pelo fato de nos brindar com uma excelente história, mas vai além e oferece de quebra um excelente álbum de jazz. 

Diretor: Damien Chazelle
Ano: 2014
Tempo: 107 min

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Sobre o Autor

Carlim

Jornalista musical instantâneo, saxofonista entre quatro paredes, híbrido de mineiro e baiano, ex-ateu, devoto ardoroso de São Victor do Horto e fanático religioso da Igreja Universal do Reino do Galo,

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