Triste coincidência: 30 anos do Warehouse e a morte de Grant Hart

husker-du-warehouse-lp-1-2Misto de comemoração e luto: Warehouse: Songs and Stories, último álbum de estúdio do Husker Dü chega aos 30 e Grant Hart nos deixa aos 56 anos.

O Husker Dü está entre as bandas mais ousadas da esfera punk. Bob Mould, Greg Norton e Grant Hart não tiveram receio em ir além das fronteiras sonoras do punk, experimentando novas formas e sonoridades, buscando a satisfação de seus desejos de criação. Tiveram sucesso comercial mesmo conservando a postura de suprir primeiramente seus anseios artísticos, importando-se com as consequências posteriormente, quando elas vinham e era necessário enfrenta-las. Adotaram a formação power-trio, nada usual entre as bandas punk.

Sem pudores, incorporaram elementos de outros subgêneros do rock quando desejaram transformar o som da banda. Numa década (anos 80) em que o punk rock e o hardcore eram dominados por um paradigma sonoro bem estabelecido, engessado, resolveram ir adiante e enfrentaram as críticas dos fãs quando lançaram seu segundo álbum duplo Warehouse: Songs and Stories (1987), que completa 30 anos em 2017.

Certamente esse é o álbum mais clean da banda e onde os caras resolveram ser mais arrojados em promover transformações no som da banda. Isso levou boa parte dos fãs da banda a torcer o nariz pro álbum, reação mais que esperada quando ocorrem mudanças radicais nesse quesito.

Warehouse: Songs and Stories (1987) pode ser considerado o prenúncio dos desdobramentos do hardcore durante os anos 90. A suavização do som, o equilíbrio dos andamentos nas faixas resultou num formato que beira ao pop. Vê-se traços do que seria o hardcore melódico no conjunto e um distanciamento com a fase anterior da banda. As guitarras seguem uma linha mais cadenciada, temperadas com efeitos secos, distorções leves. Houve um trabalho mais profundo na produção percebido devido ao uso nada econômico de efeitos de estúdio. As melodias vocais receberam cuidado, foram bem acabadas e suavizadas, ganhando acabamento “arredondado”. 

Dificilmente alguém esperaria um álbum nesses moldes um ano antes quando lançaram outro petardo: Candy Apple Grey (1986).  O que aparentemente poderia gerar acusações de “traidores do movimento” ou de terem se rendido ao mercado, mostrou-se tratar de uma obra sólida, resistente o suficiente para esperar que os fãs mais alvoroçados tivessem tempo de digerir a novidade. Warehouse não possui a unidade conceitual do seu “irmão duplo” mais velho, Zen Arcade (1984), mas apresenta uma linha musical de alta qualidade.

Temos ainda o fato de ser um álbum em que houve concessões a fim de adotar elementos que o fizessem soar pop, sem, contudo, abrir mão por completo do estilo punk. Esse direcionamento fez com que Warehouse abrisse caminho para uma vertente punk/ hardcore “alternativa”, digamos assim, a qual viria dominar o mainstream durante boa parte dos anos 90. 

Lamentamos atriste  coincidência de esses trinta anos de lançamento do último álbum de estúdio do Husker Dü, ser marcado pela morte de Grant Hart, baterista, compositor, vocalista e cofundador da banda. A notícia de seu falecimento foi divulgada na última. Grant Hart nos deixou aos 56 anos vítima de câncer.

Grant Hart não era o típico baterista, relegado a tocar seu instrumento, participava ativamente das decisões criativas e conceituais dos álbuns, exercendo papel de liderança na banda. Características que lhe valeram uma carreira solo consistente pós Husker Dü. Já em 1989 lançou seu primeiro álbum solo intitulado Intolerance. Neste mesmo ano formou a banda Nova Mob, com a qual lançou dois álbuns The Last Days of Pompeii (1991) e Nova Mob (1994). Em carreira solo ainda lançou outros quatro álbuns: Ecce Hommo (1996), Good News for Modern Man (1999), Hot Wax (2009) e seu último registro de estúdio de 2013, The Argument. Esteve no Brasil neste mesmo ano para apresentações deste álbum, baseado na obra Paraíso Perdido (1667) do poeta inglês John Milton.

Além de músico Grant Hart se dedicava às artes plásticas e pelos títulos de seus álbuns solo aficionado por filosofia, história, literatura e poesia. 

Em postagem feita em seu perfil do facebook, Bob Mould, guitarrista do Husker Dü, descreve a relação de amizade construída com Grant Hart desde o primeiro encontro em 78. Percebe-se o profundo carinho, admiração pessoal e profissional entre ambos. Abaixo a postagem em tradução livre seguida da postagem original. 

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Foto postada por Bob Mould (à direita em ambas as fotos) em seu perfil do facebook junto com a postagem em que presta sua homenagem ao amigo Grant Hart (à esquerda em ambas as fotos).

No Outono de 1978 eu frequentava a Macalester College em St. Paul, Minnesota.  A um bloco do meu dormitório ficava uma pequena loja chamada Cheapo Records. Lá havia um sistema de som perto da porta de entrada tocando punk rock. Eu entre e e acabei saindo com a única pessoa que estava por lá. Seu nome era Grant Hart.

Nos próximos nove anos das nossas vidas Grant e eu estivemos lado a lado. Nós fizemos excelentes músicas juntos. Nós (quase) sempre concordávamos sobre como apresentar nosso trabalho ao mundo. Quando nós brigávamos por conta dos detalhes, era porque ambos se importavam. A banda foi nossa vida. Foi uma década incrível.

Nós paramos de trabalhar juntos em janeiro de 1988. Nós seguimos carreiras solos, liderando nossas próprias bandas, encontrando diferentes formas de expressar nossas histórias individuais. Mantívemos contato ao longo dos próximos 29 anos – algumas vezes de forma pacifica, algumas vezes com dificuldade, outras num misto entre uma coisa e outra. De melhor ou pior, é assim que as coisas ocorrem quando duas pessoas se importam profundamente com as coisas que construíram juntas.

A trágica notícia sobre a “passagem” de Grant não me surpreendeu. Minhas profundas condolências à toda família de Grant, amigos e fãs ao redor do mundo.

Grant Hart foi um grande artista visual, um contador de histórias maravilhoso e um  músico absurdamente talentoso. Qualquer um que foi tocado por seu espírito sempre lembrará dele.

Adeus Grant, sentirei sua falta. Esteja com os anjos.

 ***

It was the Fall of 1978. I was attending Macalester College in St. Paul, Minnesota. One block from my dormitory was a tiny store called Cheapo Records. There was a PA system set up near the front door blaring punk rock. I went inside and ended up hanging out with the only person in the shop. His name was Grant Hart.

The next nine years of my life was spent side-by-side with Grant. We made amazing music together. We (almost) always agreed on how to present our collective work to the world. When we fought about the details, it was because we both cared. The band was our life. It was an amazing decade.

We stopped working together in January 1988. We went on to solo careers, fronting our own bands, finding different ways to tell our individual stories. We stayed in contact over the next 29 years — sometimes peaceful, sometimes difficult, sometimes through go-betweens. For better or worse, that’s how it was, and occasionally that’s what it is when two people care deeply about everything they built together.

The tragic news of Grant’s passing was not unexpected to me. My deepest condolences and thoughts to Grant’s family, friends, and fans around the world.

Grant Hart was a gifted visual artist, a wonderful story teller, and a frighteningly talented musician. Everyone touched by his spirit will always remember.

Godspeed, Grant. I miss you. Be with the angels.

Sobre o Autor

Carlim

Jornalista musical instantâneo, saxofonista entre quatro paredes, híbrido de mineiro e baiano, ex-ateu, devoto ardoroso de São Victor do Horto e fanático religioso da Igreja Universal do Reino do Galo,

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