Sulicídio ou Farinha Pouca, Meu Pirão Primeiro!

Sulicídio ou Farinha Pouca, Meu Pirão Primeiro!

Sulicídio faixa lançada por Diomedes Chinaski & Baco em pouco tempo coloca-nos muitas questões mas será que a cena rap é capaz de pensa-las?

O-Aprendiz-Capa

 

Ao que parece, dada as reações depois do lançamento da bomba de hidrogênio carinhosamente chamada de Sulicídio, o rap, sua cena e seus atores são intocáveis. Apesar de artistas e personalidades públicas, a critica não parece ser algo pertinente, nem a eles e nem ao rap. Como semi-deuses habitantes de um Olimpo distante dos meros mortais, os envolvidos no “ataque”, parecem ter tergiversado daquilo a que foram chamados a participar. Uma música que tinha como principal motor denunciar a exclusão de toda uma região do país, foi resumida a mero ataque pessoal, disse me disse, fofoca, intriga, destruição de uma união nacional do rap, da qual nunca ouvimos falar. E se não fosse um conto de fadas, que união é essa que não resisti a um questionamento?

Há muito tempo, corre pela rede o jargão: Falta amor, mas também falta muita interpretação de texto. E o rap que pretensamente seria o império dos favelados bem letrados; Daqueles que vivem em busca de uma visão critica diante da realidade em que vivem, parecem carecer muito da tal interpretação. Mas sobretudo, para além da interpretação, existe também a falta de um olhar para além do pessoal.

Como neófito na cena mas como um eterno pesquisador musical e cultural devo dizer que a recusa à diss ter sido rechaçada, sem nenhum tipo de problematização, é pura ignorância. Diss, é algo cultivado desde os primórdios do rap.  A transubstanciação da agressividade que corroía os guetos novaiorquinos, foi transformada em desafios estéticos, em batalhas de break, em lutas pelos melhores bombs e nos locais mais de difíceis. Mas também em batalhas, em disputas de rimas, evitando assim a violência explicita e física, trocando-a por uma sutileza poética que busca “destruir” o adversário num território neutro: A arte poética.

Nosso Coco de Embolada (pra quem é do nordeste) já é arte secular nessa linha, anterior ao próprio rap, mas até hoje cultivado em nossa região.  O que nos leva a pensar num duplo desconhecimento sobre o entendimento do valor, ou e da validade de Sulicídio. Por um lado, um amplo desconhecimento da cultura nacional, e por outro da própria história da qual se pretende ator. O que é triste, pois aquilo que poderia abrir-se para a verdadeira discussão, se fecha em defesas ególatras, sem deixar que a violência sofrida, seja respondida com um pensamento à altura. Arte é pensamento, música too. 

BacoFaz alguns meses levantamos a bola (aqui), sobre a necessidade do rap nordestino se pensar. Da importância de um posicionamento dos artistas, do público e dos produtores com relação ao mercado local e de sua relação com o mercado nacional. É preciso que deixemos de ser pista de pouso e palco de passagem para o eixo Rio-São Paulo, o que não se trata de bairrismo, mas de sobrevivência. É óbvio que não se trata de impedir, barrar, mas de ampliar, de debater nossa própria identidade e ao mesmo tempo entrarmos no “rap game”. E é nesse ponto que nos interessa a rajada dada em direção ao sul por Diomedes Chinaski & Baco com produção de Sly & Mazili. Porém diante da violência das linhas, ao que parece cada um correu pra se proteger e ninguém ou quase ninguém parou pra trocar de fato.

Por que é necessário que nesse tiroteio, se enfrente os reais problemas que a música ressalta: disputa lirica e abertura do mercado, xenofobia e exotismo na recepção sulista diante do rap feito no nordeste. Quando não invisibilidade. Enfim,  seria necessário depois dessa porrada, nos pensarmos de fato e não trocarmos acusações. Seria preciso que Nocivo Shomon – o único atacado pessoalmente – se perguntasse sinceramente, se ele não seria apenas mais um paraíba, se continuasse por aqui. Um paraíba bom de rap, mas apenas mais um paraíba! Certamente entendemos a indignação do próprio, afinal ninguém curte muito ser atacado diretamente. Porém, tendo a história que tem, e que o mesmo fez questão em várias postagens no facebook, de reviver. Seria legitimo e engrandecedor, que o mesmo pensasse do que a música fala, para além dele pessoalmente.

Seria importante que Ber (Cartel Mc’s), Nog e Predella , Ret, Felp (Cacife Clandestino),  Dalsin e Don Cesão entendessem que como estão no topo, são o alvo e que podem evoluir com ataques. Eles não foram citados a toa! (O Ber parece ter visto rápido isso e publicou na sua página no facebook.) Enquanto atores que estão no topo da cena, precisam se esvaziar e perceber que sim, quem tem sucesso fruto de trabalho, também erra, também reproduz práticas que são criticáveis, ou simplesmente não agrada a todos. A rigor, opinião, quando irrefletida merece sim todos os tipos de questionamentos, e se não se entender que vivemos em redes sociais, virtuais e reais, fudeu. Onde mesmo sem argumentos sólidos qualquer um pode falar qualquer coisa. Para além do bem e do mal, a internet gerou possibilidades de dar a palavra a quem antes não tinha. E educar, educar-se com o debate parece ser um dos principios máximos para um ethos que esteja de acordo com os novos tempos.

A xenofobia com que muitos responderam à música, não assusta e nem surpreende ninguém daqui, afinal isso é tema recorrente durante todo o ano, em quaisquer assuntos que envolvam o Nordeste. E é nesse ponto nevrálgico que a música se situou como um grito de revolta e de independência que a cena nordestina já deveria ter dado. Apesar de muitas produções ao longo das últimas décadas terem esse mesmo grito como subtexto. Só agora, dada a imensa quantidade de produções, do monte de moleques talentosos dentro de quartinhos com seus pc’s de baixa tecnologia e afiados tanto quanto em qualquer lugar do Mundo!

Como Don L pra variar, sempre pertinente em suas colocações, escreveu em sua página do Facebook, é duro, é doloroso se ver com o mesmo talento que muitos que estão no topo e não receber reconhecimento nem de sua área. Sim, porque ao contrário do que pensam muitos e toda história da música prova, não é sempre que o talento vence. A meritocracia não funciona aqui também. Uma série de variáveis fazem parte dessa equação e o mercado, a visibilidade é algo fundamental. Poderíamos montar diversas analises comparativas e mostrar ao longo da história, nos mais variados estilos musicais, que muitos que chegaram ao topo, não eram necessariamente os melhores em seu tempo.  O que por si só, não atesta contra os mc’s citados na música, mas é um questionamento, um fato, importante de se pensar dentro do mainstream.

Independente da “opinião” do público e de suas posições de torcida de futebol, a música abriu um caminho para o Nordeste se impor e para o Sudeste se repensar. Agora, dependemos do público, dos produtores e dos próprios artistas para vermos onde isso vai dar. Esperamos ansiosos, o Ep do Baco, do qual Sulicídio fará parte e também do primeiro disco do Diomedes Chinaski, Iluminuras. Mas sobretudo queremos ver como as coisas vão se desenrolar daqui pra frente, estamos de olho.

 

Sobre o Autor

Danilo

Bodyboarder de alma, pandeirista de ocasião. Pagodeiro nas horas loucas. Quer apenas poder dormir em paz nos ônibus e acredita que os fones de ouvido são fundamentais para a criação de uma nova religião capaz de acabar com o mal no mundo. Vive de Boas...

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