Sotero Hip-Hop Ideias e Expressões

Galera

Foto: Fernando Gomes

Há menos de dois meses um coletivo de produção surgiu na cena hip-hop de Salvador, aproveitando-se do crescimento exponencial desta cultura na cidade, uma banca forte e transdisciplinar se reuniu visando propor caminhos para a produção, exposição e para ações de debate e formação. A iniciativa se formou como uma rede colaborativa popular visando conectar os mais diversos agentes em prol do crescimento coletivo e aberto. E após duas reuniões, rapidamente núcleos de produção se formaram dando início aos trabalhos.

Muitos profissionais se uniram em prol desta iniciativa: produtores, comunicadores, designers, fotógrafos e videomakers. São artistas dos quatro elementos da cultura hip-hop (Break, Graffiti, Mcs e Djs) que juntos visam produzir, mas também oportunizar o quinto elemento (o conhecimento), de forma a abrir mais vias para escoar essa enorme produção artística que testemunhamos nestes meados de segunda década do século XXI.

Salvador possui uma história muito forte dentro na cultura hip-hop nacional, porém nos últimos anos testemunha-se uma evolução muito grande. No que tange a emergência de um mercado consumidor maior que tem oportunizado maiores oportunidades para aqueles que pretendem viver com sua arte.

Ainda historicamente, é preciso evidenciar que a cultura hip-hop em seus começos, encontrou sua vitalidade e terreno para o seu crescimento na capital baiana junto às organizações de bairro, partidos políticos e aos movimentos sociais, em ações políticas que oportunizavam as apresentações. De lá pra cá muita água passou por debaixo da ponte e hoje contamos com um circuito de festas fixas, pequenas gravadoras, selos e lojas especializadas. Muitos artistas e produtores tem conseguido produzir um frutífero intercâmbio com outras praças e transformado pouco a pouco a soterópolis numa parada obrigatória para os maiores nomes do hip-hop nacional e internacional.

É dentro desse contexto que o Sotero Hip-Hop se posiciona como uma incubadora e de ações para o fomento, produção e divulgação de novos projetos. Lançando-se aberto e colaborativo, numa espécie de terceira via, capaz de agregar o melhor das duas posturas acima salientadas. Entre o público e o privado, uma coletividade colaborativa buscando reivindicar politicas públicas que possibilitem melhores condições para a cultura hip-hop da cidade.

No dia 08/08 foi o lançamento público da rede, que teve como abertura uma tarde voltada ao debate com diversos setores da nossa cultura. O bate papo ocorreu na Escola de Dança da Funceb, no Pelourinho, e contou com a participação de figuras importantes como: MakonnenTafari (MC), Beth Dantas (Pesquisadora e Produtora Cultural), Cosca 071 (MC), Elienilson Silva (Cultura e Comportamento), Mickey (BBoy), Sista Katia (Graffiti) e Dj Bandido, com mediação de Quezia Silveira. Lá nós pudemos notar a diversidade de gerações dialogando e buscando pensar junto à cena, ouvindo e se posicionando nessa perspectiva coletiva de construção. Um começo sereno e produtivo, de pensamento e reflexão, para preparar o que viria pela frente dali umas horas, com as mais diversas apresentações que estavam marcadas para a Praça Tereza Batista.

O anoitecer no centro histórico testemunhou uma reunião poucas vezes vista no mesmo espaço-tempo na capital baiana, acontecimento verdadeiramente histórico. O que presenciamos foi uma noite deliciosamente marcante. Seja pela qualidade das apresentações musicais, pelo vanguardismo estético dos painéis dos grafiteir@s que expuseram seus trabalhos no espaço, seja pela beleza e malemolência dos BBoys, pelos beats arrasadores e discotecagens alucinadas dos Beatmakers e Djs ou por conta da qualidade musical d@s Mcs, seja pela força de resistência poética dos poetas e poetisas que declamaram. Ou mesmo pelo apreço da produção em encaixar essa constelação no pouco tempo que tinham para que todas as apresentações ocorressem.

A certa altura, me peguei pensando qual seria a impressão, a sensação de um jovem com pouco ou nenhum contato com o rap de Salvador, talvez sua primeira festa? E olhando para o lado pude perceber muitos jovens de olhar vidrado no palco, ao redor, pessoas das mais diversas gerações dançando e com o característico sorriso no rosto. Bateu onda nos presentes, celebração, culto coletivo, eu ouvi um amém? Uma festa épica, esteticamente diversificada, mas curtinha, sim, curta. Porque com tantas estrelas precisávamos de um céu maior para conseguir identificar melhor e contemplar com mais tempo as diversas constelações. Tudo bem, me dou por satisfeito, mas que o gostinho de quero mais tomou conta de geral é inegável.

E assim o Sotero Hip-Hop se apresentou à cidade de Salvador, com uma grande explosão de alegria, companheirismo e solidariedade, qualidade artística e produção inovadora, capacidade operacional e de construção coletiva na troca de experiências e saberes. Capaz de num curto espaço de tempo entre a idealização e a execução, produzir um evento tão marcante. O certo é que a explosão tocou fogo no terreno, resta agora semeá-lo de modo que essa iniciativa consiga seus objetivos. O coletivo continua promovendo reuniões para planejar novos projetos. Nós do Oganpazan desejamos muitos anos de vida e mantenha-se vibrante em seus próximos projetos, conseguindo congregar desejos e posições de sujeito diversas e por vezes conflitantes, visando seu objetivo fundador: o crescimento coletivo da cultura hip hop na Salvador e consequentemente na Bahia e no Brasil.

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Confira a seleção de estrelas que abrilhantaram o primeiro festival Sotero Hip Hop:

Break: Unidade Allstar Crew

Beatmakers: Victor Haggar e Diego 157

Freestyle: Larício, Dimmi, Ponciano, 16 Beats, Chagas, Moob, Muza

Dj’s: Dj Bandido, Dj Dinossauro, Dj Indio.

Poesia: Don Rimático, Recitta, Sandro Sussuarana, Indemar Nascimento, William Silva

Exposição de Grafite: Lee 27, Zezé Olukemi, IEL, Bigod, Julio Costa, Dimak, Sista Katia, Bia Cristine

Mc’s: Cosca, CDoze, Os Agentes, Turma do Bairro, Malaô, Indemar Nascimento, Lucas Oluô, Saca Só, Noblah, Faster, Galf, Vandal, Back To Back, Nova Era, Sarau Orgânico.

Sobre o Autor

Danilo

Bodyboarder de alma, pandeirista de ocasião. Pagodeiro nas horas loucas. Quer apenas poder dormir em paz nos ônibus e acredita que os fones de ouvido são fundamentais para a criação de uma nova religião capaz de acabar com o mal no mundo. Vive de Boas...

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