Prince Áddamo – Cartão Postal (2018)

Prince Áddamo lançou na noite do dia 18 de janeiro o clipe do single Cartão Postal, um retrato ácido da Cidade Baixa e Centro Histórico da capital baiana.

Prince Áddamo há tempos despontou na música baiana estampando em cores vivas sua musicalidade direta, estruturada por fibras emotivas muito bem trançadas, resultando em sonoridade que impacta profundamente devido a intensidade que atinge seus ouvintes. Suas raízes  na cultura afro são profundas! Isso lhe permitiu condensar em si toda energia recebida dessa fonte de sustentação de sua música.

Seja no afro-ijexá-beat da I.F.A, banda da qual faz parte, ou no reggae, gênero com o qual se alinha espiritualmente através do rastafarianismo, Prince busca sintetizar o universo abstrato dos sentimentos, emoções e sensações com a concretude das vivências que se dão nos pontos da cidade onde vive e mantem estreita afinidade.

Esses pontos abrigam a diversidade cultural, étnica, social e arquitetônica da Cidade Baixa e Centro Histórico de Salvador. Regiões da cidade cujas imagens capturadas formam o videoclipe de Cartão Postal. Ao dar o play no vídeo somos conduzidos por uma narrativa urdida entre os versos da música e as imagens do clipe, que nos apresentam o cotidiano das duas regiões de Salvador citadas acima. Somos conduzido por Prince Áddamo, que pedalando ou caminhando, segue por diferentes ruas e ladeiras. 

O amanhecer do Comércio, um dos bairros da Cidade  Baixa, ocorre sem movimentação, uma paz tranquilizadora, intensificada pela primeiras notas esparsar que rapidamente se condensam e eis que surge o riff dos metais e a ginga da música se apresenta dando o seu início. A câmera acompanha Prince subindo de bicicleta a Ladeira da Montanha, que tem sua dinâmica social revelada em segundo plano. Os primeiros versos da primeira estrofe avisa sobre as características desse cartão postal soteropolitano:

Cartão postal da Cidade Baixa é:

O medo de andar à noite

Na Ladeira da Montanha vai quem quer

E eu não quero ser o first

A Ladeira da Montanha passa debaixo do Elevador Lacerda e é famosa devido à resistência social empreendida por Dona Maria Dalvina (Mãe Preta), que transformou um prostíbulo em uma casa de acolhimento para todo tipo de pessoas vítimas de diversas mazelas sociais, do vício em pedra, à falta de moradia. A Ladeira da Montanha, bem como o bairro do qual faz parte, o Comércio, reflete a decadência do Centro Histórico de Salvador , cujat valorização ocorre apenas nos pontos transformados em cartões postais criados para turista ver. O guia turístico sempre aponta para além da ladeira, guiando os olhos dos turistas para aquilo que lhes é aprazível. 

Por isso o medo de andar à noite pelas suas ruas, bem como o aviso sobre o perigo de passar pela Ladeira da Montanha são colocados. Faço uma dupla interpretação desses versos. Primeiro, me parece haver a visão do turista, em segundo, a visão do nativo.

Essa coisa de você estar assumindo o risco de ser assaltado ou coisa do tipo, caso vá até a Ladeira da Montanha, reflete a percepção do turista da região. Essa é a concepção pré determinada do turista mediano,  aquele sujeito que quer consumir o estereotipo cultural e social do local que visita. Que busca ver e conehcer aquilo que está ali acontecendo e estando apenas para lhe entreter. Contrasta com a imagem do morador da cidade, o próprio Prince, que sobe a ladeira calmamente em sua bicicleta, que anda pelas ruas e ladeiras que interseccionam Cidade Alta e Cidade Baixa.  

Na próxima estrofe temos uma passagem irônica, que tira uma chinfra com o turista padrão:

Pergunte a mão que segura o mapa, se ela gosta do que vê

Na rua de nome estrangeiro até mesmo o gringo pode se perder

Foi dar a volta no mercado, de fundo modelo arredondado, Que é piada pra você

Certamente a mão que segura o mapa não vai gostar de ver as ladeiras adjacentes ao que podemos chamar de “zona turística do Pelourinho”. Isso porque elas estão povoadas por pessoas comuns, empurradas para longe dos olhares do poder público e dos consumidores turísticos, porém, seguem ali, lidando com a difícil situação que lhes é imposta e resistindo um dia de cada vez. Vemos então, que o Pelourinho e a Cidade Baixa são mais que meros enlatados turísticos, são locais onde a vida das pessoas acontece. 

Nesse momento a câmera  mostra o descaso com as ruas do Comércio, sujas, esquecidas, habitadas por pessoas igualmente esquecidas pelos governantes, que certamente só lançarão seu olhar sobre aquela região quando for possível transformá-la em produto de consumo. Aí certamente entrará para o mapa turístico da cidade para que o “visitante” possa admirar algo que agrade seu olhar e seu anseio de consumo. 

Vejo em Cartão Postal um manifesto de denúncia e combate à gentrificação, processo pelo qual o Pelourinho passou no início dos anos 90, quando o então governador Antonio Carlos Magalhães, expulsou moradores desta localidade a fim de transformá-la no que é hoje, um cartão postal para consumo dos turistas que visitam Salvador. Outros bairros da cidade passam por esse processo que segue tirando as particularidades sociais e culturais desses lugares, transformando todos em um belo enlato para consumo de quem possa consumi-lo claro.

Cartão Postal nos leva a dançar, a viajar pelas sensações e emoções que provoca, porém nos convida a pensar a respeito do espaço urbano que habitamos, a pensar nossa relação com nossa cidade, nossa casa. Pensar o modo de nos relacionarmos com nossos irmãos que compartilham essa casa conosco. Leva-nos a entender os vínculos existentes entre cada um de nós a partir da nossa zona de vivências. 

Por menos cartões postais e melhores condições de vida em nossos bairros. Que possamos seguir pelas ruas e ladeira de nossa Salvador em paz, com tranquilidade, desfrutando dos intercâmbios sociais e culturais que só nossa cidade possibilita! 

Ficha Técnica:

Produção: APUS Produtora de Conteúdo

Direção: Marcelo Pinheiro e Cláudia Chávez

Direção de fotografia: Marcelo Pinheiro

Câmera adicional e assistência: Leonardo Martins

Produção executiva e figurino: Claudia Santarosa

Assistente e acervo de figurino: Danilo Pureza

Sobre o Autor

Carlim

Jornalista musical instantâneo, saxofonista entre quatro paredes, híbrido de mineiro e baiano, ex-ateu, devoto ardoroso de São Victor do Horto e fanático religioso da Igreja Universal do Reino do Galo,

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