Os 5 melhores álbuns de jazz de todos os tempos?

FREE JAZZ – ORNETTE COLEMAN

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O jazz entre os estilos musicais é o mais livre. O improviso representa essa liberdade, permite ao músico expressar seu estado de espírito e sua identidade musical apresentados no tempo em que dura sua improvisação. O improviso esteve presente no jazz tradicional de New Orleans, nas big bands e teve no bebop com Charlie Parker, Dizzy Gillespie e Thelonius Monk a expansão dessa liberdade.

O bebop inaugurou uma nova forma de se tocar o jazz uma vez que rompe com o formato big band imprimindo o quarteto e quinteto como nova formação dos grupos de jazz. Os improvisos eram construídos a partir de um tema principal, uma composição que dava á música uma identidade. Contudo essa liberdade foi levada ao limite com Ornette Coleman em seu álbum batizado de Free Jazz, lançado em 1960 pela Atlantic Records.

Todo o álbum é um improviso que dura 58 minutos, não há temas, todas as melodias são criadas segundo a inspiração pessoal de cada músico enquanto dura a execução da música. Ornette Coleman dispensa o piano na formação do quarteto que grava o álbum, resultando em uma sonoridade caótica e desprovida do suporte, até então indispensável, de um instrumento harmônico. Temos a experiência de ouvir frases melódicas que levam nossos ouvidos a direções diferentes, somos jogados num trânsito sonoro caótico, em que os sons vão de um lado para outro numa ordem desordenada. A falta de estabilidade e de um padrão harmônico causa estranheza, às vezes enjoo, pois nossos ouvidos não estão acostumados a uma tempestade sonora que dure tanto tempo.

O free jazz de Coleman é 100% improviso, dispensa o riff, o tema principal e a harmonia. Ao fazer do improviso única condição para se fazer o jazz, Ornette Coleman compôs uma obra-prima única, que levaria as próximas gerações de músicos a tratar o improviso de uma outra forma na imensidão sonoro que é o jazz.

Gravadora: Atlantic Records
Data da gravação: 21 de dezembro de 1960
Duração: 54:09
Gênero: Jazz
Estilos: Avant-Garde / Jazz / Free Jazz/ Jazz Instrument / Saxophone Jazz

KIND OF BLUE –  MILES DAVIS

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Miles Davis formou-se nas big bands, mas foi sua inserção no universo do bebop fazendo parte do quinteto de Charlie Parker que o levou à busca de sua identidade musical.

Os primeiros vinte anos de sua carreira o levaram a unir a liberdade extremada e agressiva do bebop com a arquitetura musical expressa nos arranjos sofisticados das big bands. Miles Davis criou o cool jazz através dessas influências. Uma sonoridade leve, improvisos que buscam a qualidade do som na economia das notas.

Kind of Blue é o último estágio da fase cool da música de Miles. Com esse álbum Miles Davis chega o mais próximo possível da perfeição que poderia alcançar com o cool jazz. As músicas que compõe o registro geram uma atmosfera introspectiva, envolvendo o ouvinte com uma suavidade sensual.

Cada nota, cada frase parece ter sido escolhida segundo critérios sublimes e tem-se a nítida sensação de flutuar no espaço. Lembremos que o sax tenor nesse álbum foi tocado por nada mais nada menos que John Coltrane.

Gravadora: Columbia Records
Data da gravação: 17 de agosto de 1959
Duração: 55:16
Gênero: Jazz
Estilos: Hard Bop / Modal Music / Jazz Instrument / Trumpet Jazz

BITCHES BREW – MILES DAVIS

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Miles Davis é sem dúvida o maior músico de jazz de todos os tempos. Essa afirmação de modo algum é gratuita e deve-se ao fato da necessidade constante que este músico teve de expandir as fronteiras de seu som.

Fica clara em sua discografia a transformação constante de sua música, responsável por criar novos gêneros musicais como o cool, o jazz rock, o fusion e o jazz eletrônico no final de sua vida. Miles Davis não teve medo de quebrar as barreiras e “macular” o jazz, quando em 1969 introduz instrumentos elétricos característicos do rock e do blues ao jazz. Bitches Brew marca um novo momento do jazz, que migra do acústico para o elétrico.

Não bastasse a eletrificação do jazz, esse álbum apaga a distinção entre tema e improviso, marca registrada do jazz até então, o que gerou na época duras críticas dos jazzistas à Miles e novas questões aos amantes, estudiosos e músicos de jazz: Bitches Brew seria um álbum de jazz? Miles Davis ainda poderia ser considerado um músico de jazz?

Todas as linhagens do jazz nascidas até este momento crucial contavam com uma formação padrão, estabelecida pelos bebopers, em particular Charlie Parker, Dizzy Gillespie e Thelonius Monk, a formação em quarteto e quinteto. Claro que antes disso havia as orquestras de jazz, as famosas big bands e a consolidação dos quartetos e quintetos teve uma importância fundamental para o nascimento do jazz moderno. Contudo ainda eram os mesmos instrumentos utilizados nas orquestras, tínhamos então: bateria, piano, baixo acústico, saxofone (na maioria das formações o sax tenor) e trompete.

A formação de Bithces Brew dispensa todos esses instrumentos e adota a guitarra elétrica, que se serve de todos os efeitos que este instrumento pode oferecer como as distorções, o uaua; baixo elétrico, piano elétrico (sintetizador), percussão (lembremos que o percussionista Airto Moreira fez parte dessa banda de Miles, colocando inclusive a cuíca pra roncar em quase todas as músicas) e o mais estranho, um trompete eletrificado. Além do sax alto e soprano o clarone é utilizado na primeira música do álbum, Pharoa´s Dance. O clarone é uma mistura de saxofone com clarineta. Seu corpo de madeira e o formato de cachimbo produzem um som peculiar, encorpado, lembrando um rugido.

Temos, portanto em Bithches Brew no mínimo três inovações: a eletrificação dos instrumentos, a dissolução das fronteiras entre tema e improviso e a utilização de instrumentos “exóticos” ao menos no que tange o jazz.

Gravadora: Columbia Records/ Legacy
Data da gravação: 19 de agosto de 1969/ 28 de janeiro de 1970
Duração: 01:45:43
Gênero: Jazz
Estilos: FusionJazz / RockJazz / Instrument Trumpet / Jazz

A LOVE SUPREME – JOHN COLTRANE

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John Coltrane criou uma nova maneira de tocar o saxofone. O som forte e agressivo de Coltrane é inconfundível. Antes de formar seu quarteto fez parte do quinteto de Miles Davis participando das gravações da obra prima Kind Of Blue. Compôs clássicos do jazz como Blue Trane, Giant Steps, Naima e imortalizou músicas de outros compositores como My Favorite Things e Afro Blue.

Porém, a obra máxima de John Coltrane é A Love Supreme, gravado em 1965 pela gravadora Impulse. Segundo sua esposa Alice Coltrane, John trabalhava incessantemente em uma nova composição. Quando não estava em turnê, trancava-se no sótão de sua casa durante o dia todo buscando a perfeição sonora que sua alma perseguia há anos. Esse foi um período de transformação para Coltrane, ele havia se voltado para a espiritualidade e ambicionava fazer um som que expressasse em sons o que se passava em seu próprio espírito. O contato com religiões orientais influenciou profundamente o modo de vida do músico e consequentemente sua música. John Coltrane buscou transcender a matéria em busca da inspiração e por fim traduzir na materialidade dos sons aquele mundo espiritual no qual se enveredou.

Composto por quatro partes Acknowledgement, Resolution, Pursuance e Psalm, Coltrane nos presenteou com uma sonoridade misteriosa, sagrada, de purificação e aperfeiçoamento espiritual, e toca com carinho a perfeição. Em Acknowledgement, ao som do saxofone tenor e do quarteto que cria uma atmosfera mística, temos a voz de Coltrane repetindo o título de sua obra prima: “A Love Supreme, A Love Supreme…”

No documentário A História do Jazz do diretor Ken Burns, na parte em que aborda a música de John Coltrane, o narrador diz que a grande ambição do sax tenor nos anos sessenta era tornar-se santo. John Coltrane acreditava em Deus, acreditava que possuía uma missão: traduzir em sons a perfeição da espiritualidade. Ouvir A Love Supreme é ouvir a voz de Deus, as quatro partes que o compõem são a expressão sonora do que se passa no mundo espiritual. O amor é supremo, nele reside a perfeição do espírito e a redenção da alma.

Para Coltrane a música tinha por finalidade elevar a alma humana, em A Love Supreme coloca-nos em contato com o inefável, o sagrado, aquilo que não pode ser expresso verbalmente, mas que se faz presente através dos sons que compõe a obra.  Ouvindo esse álbum parece ser possível a existência de Deus.

Gravadora: Impulse!
Data da gravação: 9 de dezembro de 1964
Duração: 32:59
Gênero: Jazz
Estilos: Avant-Garde Jazz / Free Jazz / Hard Bop / Modal Music / Post-Bop / Jazz Instrument / Saxophone Jazz / Trumpet Jazz

TIME OUT – DAVID BRUBECK  

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Gravado em 1959 pela Columbia Records, Time Out do pianista Dave Brubeck inova ao trazer composições inspiradas na música oriental, como Blue Rondo a la Turk, ao explorar de modo singular os compassos 5/4 e 9/4, ao intensificar a participação do piano na condução da música e ao mostrar que os brancos também podiam fazer jazz de qualidade.

Paul Desmond, saxofonista branco com timbre suave e refinado desempenhou um papel importante para imortalizar Times Out na lista de obras-primas do jazz. Sua execução e improvisação de Take Five imprimiu ao álbum uma identidade. Todos os amantes do jazz quando esquecem o nome desse álbum o identificam como “aquele álbum que tem Take Five”.

Um álbum suave, marcado pelo toque “martelado” das teclas do piano de Brubeck e pela suavidade sonora do sax alto de Paul Desmond fizeram de Times Out um marco na história do jazz e um dos cinco álbuns mais importantes na história do jazz segundo esse que vos escreve.

Gravadora: Columbia Records
Data da gravação: 25 de junho/ 18 de agosto de 1959
Duração: 38:37
Gênero: Jazz
Estilos: Cool / West Coast Jazz / Jazz Instrument / Piano Jazz

Sobre o Autor

Carlim

Jornalista musical instantâneo, saxofonista entre quatro paredes, híbrido de mineiro e baiano, ex-ateu, devoto ardoroso de São Victor do Horto e fanático religioso da Igreja Universal do Reino do Galo,

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