Oganpazan Entrevista Davi Nadier Beirando Teto

Diante de certa recepção negativa de um verso, entrevistamos Davi Nadier (Beirando Teto) para falarmos um pouco mais sobre suas opiniões.

Beirando Teto

Alguns meses atrás travamos contato com Overfluxo e Sinapses, duas faixas excepcionais do Beirando Teto, um projeto que até então desconhecíamos. Impressionados diante de tanto talento, acidez e qualidade poética, após noticiarmos as tracks perdemos Davi Nadier de vista. Na última semana, dando prosseguimento ao lançamento das faixas dos manos do D.D.H. chegou a vez da pesada Santíssima Trindade da Sujeira, na qual o Beirando Teto compõe essa trinca suja. E rapidamente após o lançamento a treta se instaurou, alguns dislikes em represália as ideias colocadas especificamente na parte deste convidado indigesto.

O Oganpazan como espaço de divulgação e pensamento sobre música, se quer também como um espaço de debate, de produção de ideias, sem proselitismo e com certeza sem se prender a grupelhos. Almejamos neste ambiente a divulgação de trabalhos que entendemos relevantes mas também um espaço para que ideias divergentes surjam e possam contribuir para o debate sobre a cena. Tendo apenas o pensamento como meta e destinação. Diante da oportunidade dada pelos eventos acima relatados entrevistamos o Davi Nadier visando ouvir suas ideias e conhecermos mais um pouco desta grande revelação do rap brasileiro.  

Oganpazan – Primeiramente se apresente, quem é você, como começou na música, a quanto tempo nessa caminhada, quais as conquistas até agora?

Me chamo Davi Nadier, alguns me chamam Davzera, sou o representante do Beirando Teto, tanto nas produções quanto nas letras. Escuto rap desde os 11 anos, lembro que a primeira track que ouvi foi “Babylon By Gus” do Gustavo Black no programa MTV Lab, 2003, 2004 por aí, de lá pra cá comecei a ouvir os nacionais e os gringos.

Faço freestyle  desde 2009, colava nos Aflitos, Passeio Público, MAM ,quando comecei com os outros integrantes do Beirando Teto, que hoje não estão em atividade, tão fazendo outros corres, mas foram os responsáveis por me mostrar que existe, além do bom e velho free, algo a ser criado,  uma bandeira pra ser levada adiante, e de lá pra cá, é o que eu tenho feito.
Comecei um ano depois que saiu o “Non Ducor” de Kamau, que foi o álbum que eu escutava com Bruno Saraiva (Headb), que compôs “Vindo de Fora”, faz parte do Beirando Teto também, agora mora no Canadá com a esposa, produz beats e em breve vai ter lançamentos do Beirando Teto com produções dele.

O Non Ducor Duco, Quinto Andar e Subsolo foram divisores de águas na minha opinião, sons que deram um estalo gigante sobre possibilidades, o poder de informação e o alcance que o rap tem, sem esquecer o Racionais e outros. Eu escutava Relatos da Invasão, Rodrigo Nonato, MV Bill, mas Kamau e o Quinto foram responsáveis por esse estalo que eu falei, não é a toa que são tão admirados por TODOS os apreciadores do rap nacional. Shawlin foi responsável por desenvolver massa cinzenta numa cacetada de gente aqui no Brasil, assim como Black Alien e Speed que são mais antigos.

Sinceramente, me sinto novo como MC, ainda tem um universo de coisas pra fazer, mas em breve meu home Studio vai estar pronto, vai facilitar cozinhar as paradas melhor, é nisso que eu tenho mais pensado.

Um dos caras mais alma pura que já conheci e trabalha com isso, foi o cara que me deu o pontapé inicial, pra começar a gravar, Douglas de Paula (Afro Samurai) que representa o Selo Mangue, onde Mobb e Darthayan também fazem parte. Sempre que pego num microfone ou gravo qualquer coisa lembro da recepção, paciência do cara, respeito muito, fez o beat de “Fraldas a Declarar”, essa track só tem no meu Soundcloud. Na sequência veio “Sinapses”, “Só de Ida” (com participação de Baco), “Overfluxo”, “Alktraz”, que é uma track antiga já, mas muito densa, os caras que compuseram comigo são de Aracaju também, do Alquimia Solar, por quem tenho uma admiração gigante: Saulo, Lucas Safadi, Mukamo, Pedro Guaraná é meu irmãozão, e foi regravada quando voltei em Aracaju há uns tempos atrás.

Oganpazan – Quais são as principais influências que vocês traz pra sua música, sejam referências musicais, sejam literárias, poéticas ou até filosóficas?

Quando eu era guri escutava muito Rage Against, Korn, Slipknot, Nirvana, depois que comecei a ouvir rap e vieram Eminem e o D12, 50Cent, e um pouco depois os nacionais, Relatos da Invasão, Rodrigo Nonato, Andromeda Rap, Sombra, Oficina da Rima, que é um grupo underground que Criolo participava. Sinto um orgulho do caralho quando alguém fala que meu rap é underground, que lembra alguns caras, isso significa que existe transparência nos raps. Minha opinião é que onde não existe transparência, não existe arte. Muita gente confunde artista com estrela, isso é um erro escroto. O artista é o que faz arte, com as mãos e com o coração, a estrela pode ser artista, mas as estrelas mais veneradas de hoje em dia não tão criando bosta nenhuma. Acho que o comércio da música tira das mãos dos artistas o papel de transformar, mexer com as cabeças das pessoas, e a profundidade das produções, da mensagem artística que se foda. Por isso o cenário independente do rap explodiu, vários home studios por aí, a Matrero Records por exemplo, representa  a teimosia poética e musical, representa o cheiro do ralo que vai ser sentido mesmo que vc queira ouvir só trap (leia-se refrões pra caralho e autotune).

 É uma receita simples que muitos seguem, vc capta público pensando com a cabeça do público. Entrar no estúdio pensando como os adolescentes e adultos que vão comprar seu som, camisas, pensar verso por verso imaginando a forma como aquilo vai ser recebido. É o processo criativo dos caras que fazem o comercial lá fora e aqui também. Black Alien, Neto, Shaw, conseguiram respeito sem abrir as pernas, falando o que pensam, assim como NAS, Ol’Dirty Bastard nos EUA, e o High Focus inteiro na Inglaterra.

Oganpazan – Vejo que você traz algumas referências filosóficas, “Esfarelei meu escapulário, Mano Nietzsche me fez mal.”? Você curte filosofia, como essas influências afetam seu trabalho?

Curto filosofia, acho até que a filosofia tá em tudo todos os dias, quando você pensa muito sobre algo, e não tem influencia externa de opiniões, você tá filosofando. Quando você esgota o pensamento sobre alguma coisa, você consegue ter algo concreto, mas ninguém tem esgotado nada hoje em dia. A tecnologia esfaqueou a filosofia, não existe mais ócio, pensamento. O ócio é o que faz você se sentir de saco cheio e pegar seu violão e começar a tocar, faz você olhar pra cima e ter idéias, insights sobre coisas que você nunca pensou, seu cérebro e suas inteligências se arrumando. O whatsapp não permite muita gente pensar, é um estímulo externo que reduz a margem de pessoas criando coisas. Afinal, redes sociais são compartilhamentos, apesar de divertido, se você vê Fofão do Trenzinho Carreta Furacão dançando no vídeo, as pessoas dão risada mas não vão dançar igual.

 Muitas pessoas hoje são intermediárias de opiniões, estão ‘’cheios de certezas”. Falam sobre tudo mas não pensam por ângulos diferentes sobre quase nada. As discussões sobre o quadro social-político é a prova disso, tem pessoas que realmente vão votar em Bolsonaro, acham Olavo de Carvalho foda, etc. Muita gente fala sobre política mas não sabe nem o que é a Assembléia Legislativa e pra que serve.

Nós precisamos começar a pensar fora da caixa, buscar conhecimento pra ter opiniões, senão, na inexistência de algum miolo, a mídia empurra informações, e pra quem não tem nada, qualquer informação ta servindo.

Oganpazan – Recentemente você colou com os manos do D.D.H. na track Santíssima Trindade da Sujeira, como é trabalhar com esses manos?

Do caralho, Mobb e Baco são uns dos caras que mais admiro aqui em Salvador, apesar de já ter escutado alguns outros MC’s, porém, a identificação maior vem quando a gente troca energia, faz free e entende como funciona a cabeça e a existência da pessoa.  Já conhecia Baco, lançamos “Só de ida” há uns tempos, e Mobb, tentamos lançar uma, mas não rolou e agora a gente firmou, lançamos essa música aí juntos, nós três.  Pra não dizer que não valorizo outros MC’s, sei da influência do Nova Era, DaGanja também, e Felipe Gurih também acho um MC fora de série.

O DDH representa o acúmulo de vontade de criar RAP, de avançar nesse terreno do rap, por isso me identifiquei. E pelo fato dos caras serem desbocados também. O rap pra muitos é glamour! “minha banca”, “a cena”.

Acho que a cena acontece enquanto tem alguém fazendo beats, letras, mixando, masterizando e lançando, ou escrevendo sobre quem ta fazendo isso, isso é construção. Ano passado rolou um boom de faixas por aqui, uma galera começou a lançar, fico feliz de ver uns caras saindo das batalhas e indo pro estúdio lançar coisas. 2015 foi importante porque acho que rolou um estalo maior, o mais importante, de tudo que tá rolando, alguns caras botaram na cabeça que: ou vc mete a mão e cria o que você quer, ou fica vendo navios, esperando de outras pessoas que já não criaram rap e tão pouco se fudendo pra você. Tem uns ‘tios do rap’, que querem fazer política, eu não sou político, rap não é política, rap é criação. Os criadores tão se encontrando no caminho e conseqüentemente se unindo pra desenvolver o esquema.

Mobb é poético pra caralho, tem as linhas mais ácidas daqui, se uniu com Baco que também carrega as mesmas características, aí fudeu. DDH é uma junção que marca o fim da nomenclatura “tio do rap” aqui, como o UBR fez lá em Brasília. Isso marca o divisor de águas do rap daqui, que muito em breve vai fazer parte do rap nacional, acredito que o terreno está aberto, vejo um horizonte interessante para o rap nordeste, Sergipe também tem uns cara foda.

Oganpazan – Sua participação junto ao D.D.H. gerou uma treta, você não gosta do Trap não? O que você pensa sobre esse estilo?

 O que rolou foi uma interpretação negativa do que falei. Eu sou uma pessoa como qualquer outra, e dou opinião! Eu não quis desmerecer o trap ou quem faz trap. Você pode fazer trap, meter beats dançantes e bem produzidos e captar público por isso.
Eu levantei uma discussão interessante pra algumas pessoas, outras se contentaram em dar dislike no vídeo e não comentaram o porque, não rolou um debate.

O trap é uma vertente que deu certo, comercialmente falando deu muito certo e é a tendência. Ouço trap, ouço A$AP Rocky, Ferg, Travis Scott, Denzel Curry, Thug, FlatBush Zombies e Underachievers fazem uns traps loucos, mas sinceramente, em minha opinião, o RAP representa outra parada. Quando vc faz uma lista de 10 MCs mais importantes, mais influentes, acho meio impossível vc incluir algum desses que eu falei, ou T.I., Lil Wayne, por exemplo. Faça um Top 10 de caras que moldaram sua cabeça como ouvinte de rap e tente incluir algum que faça trap, eu particularmente, não consigo. Por mais que vc dance, se divirta, eu também ouço em casa, mas me pergunte quem são os maiores da história, vou te dar minha opinião e não vai ter trap no meio. Se isso mudou e a galera que faz trap hoje em dia forma opiniões, paciência. Pra mim é o mercado do trap. Travis Scott disse há pouco tempo que nem é rapper.

Oganpazan “Trap não é rap, flow não é ideia, devolva o liricismo, pau no cu da sua plateia”, por favor comente.

É como respondi em cima, eu sou fã de NAS, Red Man, Jam Baxter, Eminem, Shawlin, Earl Sweatshirt, o PRO ERA com Joey Badass, Capital Steez, todos esses, historicamente falando, ganharam reconhecimento com RAP, o que significa TRANSPARÊNCIA DE SENTIMENTO, transferência de idéias. O coletivo A$AP faz uma grana do caralho, mas convenhamos, não se trata só de música, captou? Thug não ganha dinheiro só com shows, propagandas, vc me entende. Tem um doc da NOISEY que clareia isso muito bem. Aqui no Brasil, são poucos que ganham dinheiro com venda de RAP, e os que fazem trap, divertem. Foi isso que quis dizer.

Trap é divertido, faz pessoas dançarem, enche os shows, consumo pra caralho, também gosto e vou fazer em breve! Esse magnetismo pelos beats, torna o trap atraente. Mas por trás dos views e do “domínio”, é um mercado mais cabuloso do que parece, assista “Multiply” de A$ap Rocky e você vai ver que o esquema é nebuloso, “Upper Echelon” de Travis $cott também tem uma atmosfera cabulosa. O trap começou a partir das ‘traphouses’, quem pesquisar vai ver. Antes de construir os estúdios e produzir os beats, o dinheiro já não cabia nos cômodos das casas. Comparar trap com rap é comparar Mike Tyson com Michael Jordan. Eu respeito quem adquire respeito e admiração com linhas pesadas, idéias quentes. Ver alguns caras dizerem que tão dominando o rap com autotune é meio indigesto na minha opinião. A parte do liricismo é auto explicativa, ouça “NY State of Mind” de NAS, ou “Rite”  do Redman, e veja o que eles conseguem fazer, é gosto, opinião.

 

 Oganpazan – E suas novas produções, quando teremos a oportunidade de ouvir um disco cheio do Beirando Teto?

Tô terminando a montagem de um clipe que filmei com um brother chamado Fernando Baggi, que vai sair em breve, de uma track que seria só música mesmo, mas aí a gente teve a ideia de sair pra filmar, para um primeiro clipe, vai ficar interessante. É mais complexo do que pensei finalizar um clipe. A partir daí fecha o EP, e começam novas coisas.

Oganpazan – O que vem pela frente de material novo, participações, shows etc…?

Final de abril eu to terminando de montar meu home studio, e aí, eu vou ter possibilidade de gravar muito mais coisas, to buscando uma independência em gravação, produção e quero lançar com mais freqüência, por isso to investindo, e mesmo antes de estar pronto o estúdio, eu já recomendo pra alguns amigos que fazem som, tentar não depender dos outros, a bagagem é sua, o projeto é seu, conseqüentemente quem vai pensar melhor sobre a finalização, o andamento do processo criativo é você, ou pessoas com quem você convive de verdade.

Oganpazan – Se teve alguma coisa que não perguntamos e que você gostaria de responder, por favor, esse espaço é seu.

“O que vc acha que precisa acontecer para que o rap se torne um organismo? Uma coisa só?”
O rap já é unido, o que desune são pessoas que não criam mas se sentem donos do rap. As pessoas que criam são unidas, os freestyleros são unidos, e quando não são, basta um beatbox e em 10 minutos os caras se aproximam.  O que confunde são as interpretações negativas propositais, é o que torna o rap um terreno meio escroto. Se dois grupos que fazem rap não se batem, não fazem participação, mas tem transparência, os dois são rap, eles tão trabalhando de certa forma, juntos.  Muita gente é hater do Haikaiss, por exemplo, mas Pedro Qualy cola com Sandrão, faz som com Sombra, ou seja, se eles se permitiram, porque uma pessoa que nunca produziu letra ou beat vai achar ruim? Tem algo errado, herói.

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Sobre o Autor

Danilo

Bodyboarder de alma, pandeirista de ocasião. Pagodeiro nas horas loucas. Quer apenas poder dormir em paz nos ônibus e acredita que os fones de ouvido são fundamentais para a criação de uma nova religião capaz de acabar com o mal no mundo. Vive de Boas...

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