O mundo visto sob a perspectiva de John Coltrane

John Coltrane não foi apenas um dos maiores músicos do século XX, mas um dos maiores homens daquele século! E não há uma gota de exagero nesta afirmação! 

O mundo visto sob a perspectiva de John Coltrane

Certamente a maioria esmagadora das pessoas considera a genialidade o estágio máximo de aperfeiçoamento da capacidade de criação humana. O indivíduo considerado gênio em uma determinada área, realiza seus projetos com excelência e lega aos demais seres humanos uma fonte inesgotável de prazer, reflexão, contemplação, debate, inspiração, etc.

Para John Coltrane a genialidade não era um fim, tampouco o limite do aperfeiçoamento estético, espiritual, material, ou seja lá o que for. Jonhn Coltrane não se contentou em ser um gênio da música, John Coltrane aspirou a santidade! Como um Sidartha do romance de Hermann Hesse, Coltrane percorreu através da música todas as esferas da existência humana. Conheceu o poço escuro e profundo do sansara, despertou-se, libertou-se e lançou sua música em direção da elevação do espírito.

John Coltrane passou a buscar o aprimoramento espiritual através do aprimoramento musical. Seu espírito aos poucos se fundiu ao som que fazia brotar não só do seu sax, mas de todos os instrumentos que compunham seus grupos de jazz. A música para John Coltrane era um meio através do qual se tornaria melhor, tanto musicalmente quanto espiritualmente. Tinha na música o instrumento que o permitia saber mais sobre si, o mundo e a existência. 

O roteiro de  The World According to John Coltrane (1990) (O Mundo Segundo John Coltrane), escrito por Robert Palmer, enfatiza essa assimilação espiritual da música por John Coltrane. Toda pesquisa empreendida por Coltrane visava saciar a curiosidade que o motivava desde os primeiros contatos com o saxofone. Na medida que ganhava autonomia e encontrava sua forma de compor e tocar a sede por saber e explorar novos território musicais o levaram a incorporar a música a seu espírito. Isso o fez levar a música além das fronteiras estéticas.  

Ao conhecer mais a fundo as estruturas musicais do oriente e perceber a profunda ligação entre a música e a espiritualidade em diferentes culturas orientais, Coltrane fundiu seu jazz com esses elementos. Desde a infância a religiosidade esteve presente em sua vida. Seu pai era pastor e embora tenha morrido enquanto o saxofonista ainda fosse muito jovem, teve na figura materna todo referencial religioso que norteou sua vida durante a infância e adolescência. Como ocorre na maioria das biografias dos grandes ícones da música negra estadunidense, John Coltrane também teve seu primeiro contato com a  música através da igreja. Foi lá que se encantou com os sons via os gospels e hinos religiosos tocados e cantados durante os cultos. 

Próximo ao final do filme, Alice Coltrane, pianista e esposa de John, define bem a obsessão de seu marido por sempre ir além do que já tinha feito. Segundo Alice, assim que criava algo, aquilo imediatamente tornava-se obsoleto para John. Essa dinâmica colocava sempre um novo limite a ser superado por Coltrane. O documentário mostra que a constante transformação pela qual passava a música de Coltrane deixou críticos de jazz e músicos completamente perdidos. Alguns pela completa falta de referencial que permitisse dizer o que John Coltrane estava fazendo, outros pela profunda sensação de êxtase que a música provocava justamente pelo seu caráter completamente inovador. 

Não foram apenas os músicos de jazz que se deixaram seduzir pelas inovações produzidas por John Coltrane. Seu minimalismo contaminou os compositores clássicos estadunidenses seus contemporâneos. Isso fica evidente no depoimento do compositor La Monte Young. Bandas de rock e outros gêneros buscaram na música de Coltrane inspiração para renovar sua própria música. Esse processo de constante criação e busca pelo novo encontrou barreira apena quando a morte abateu John Coltrane. 

Em seus últimos anos de vida a tônica da busca pelo aperfeiçoamento espiritual através da criação musical já havia alcançado seu ápice. As apresentações do novo grupo musical de John Coltrane expressavam a sintonia entre seus componentes, todos imersos na proposta de John. Os concertos pareciam verdadeiras celebrações religiosas pois os músicos pareciam entrar num transe e serem completamente arrebatados pela música que produziam.

O quinteto formado por Alice Coltrane no piano, Pharoah Sanders no sax tenor, Jimmy Garrison no contrabaixo e Rashied Ali na bateria permitiu a Coltrane romper as últimas amarras musicais que o prendiam às regras formais a que alcançara até ali para desembocar num estilo completamente livre e espontâneo. Os álbuns feitos a partir da formação dete quinteto, por volta de 66, apresentam os graus mais abstratos de toda carreira de John Coltrane. 

Aos amantes de jazz e música em geral é quase um dever assistir The World Acoording to John Coltrane. O filme oferece as lentes pelas quais ele via o mundo. Lentes abstratas pois componentes dos olhos do espírito. Nada mais envolvente que assistir à derradeira luta do espírito por se libertar das amarras do corpo. Pode não ser algo concreto por pretender-se transcendental, porém como metáfora existencial está bem ancorada na imanência da busca pelo sentido pra se estar vivo. 

Abaixo o documentário completo e com legenda em português:  

Ficha Técnica:

The World Acoording to John Coltrane

Direção: Robert Palmer, Toby Byron

Produção: Toby Byron, Richard Saylor

Roteiro: Robert Palmer

Participações: Rashied Ali, Tommy Flanagan, Jimmy Health, Wayne Shorter, La Monte Young, Alice Coltrane

Distribuição: BMG Video

Ano de Lançamento: 1990

Duração: 59:25 min.

Indioma: Inglês

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Sobre o Autor

Carlim

Jornalista musical instantâneo, saxofonista entre quatro paredes, híbrido de mineiro e baiano, ex-ateu, devoto ardoroso de São Victor do Horto e fanático religioso da Igreja Universal do Reino do Galo,

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