O Mistério do Samba

Em O Mistério do Samba o azul e branco tomam conta da tela nesse emocionante documentário conduzido por Marisa Monte e Paulinho da Viola.

O mestre Dorival Caymmi já dizia: “quem não gosta de samba bom sujeito não é”, e isso é algo que fica bastante claro no decorrer de O Mistério do Samba (2008), documentário dirigido por Carolina Jabor e Lula Buarque de Holanda. O filme mostra o processo criativo dos sambistas da Velha Guarda da Portela e suas relações com a comunidade, a devoção ao samba e a paixão pela escola, intercalando momentos de pura poesia com a execução de belíssimos sambas e o cotidiano dos sambistas na comunidade de Madureira. Os espectadores são atingidos em cheio com a beleza das composições e a entrega com que os sambistas (e demais membros) se dedicam para que suas tradições possam se manter de pé em um país de memória fraca que desvaloriza a sabedoria dos mais velhos.

Conduzido de forma intimista pela cantora Marisa Monte, o filme serve de registro histórico por acompanhar o trabalho de pesquisa para a gravação do disco Tudo Azul (excelente por sinal). A cantora revirou os baús por mais de nove anos e descobriu histórias belíssimas, além de pérolas do samba que provavelmente estariam condenadas a desaparecer no tempo caso esse trabalho de resgate não acontecesse. Em nenhum momento Marisa deixa que sua popularidade ofusque o brilho dos entrevistados que ao longo dos quase 90 minutos brilham e nos encantam com músicas lindas e causos que passeiam pela história da tradicional escola de samba carioca e o cotidiano de um Rio de outrora – marcado pela força do mais tradicional dos estilos de música brasileira.

O longa agradará não apenas aos fãs do gênero, mas a todos que gostam de boa música, pois é impossível não se emocionar com as belíssimas canções e histórias cantadas e contadas por gente da estirpe de Manacéa, Monarco, Cascatinha, Argemiro do Patrocínio, Tia Surica. Essa última talvez a representante feminina mais importante e emblemática da escola, o que evidencia a força das mulheres dentro da Portela que (além de preparar a feijoada) determinavam, segundo Monarco, o que seria cantado ou não. “A gente fazia um samba, mas, se elas não quisessem cantar, não adiantava. Se gostassem aquilo se tornava um sucesso” afirma o sambista.

O Mistério do Samba tem como mérito envolver o espectador de tal maneira que nos faz sentir muito próximos aos entrevistados. As perguntas dirigidas aos bambas parecem que poderiam ser feitas por qualquer um de nós na informalidade de uma mesa de bar. Ao longo do filme surgem personalidades como Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho que ajudam a dar ritmo à narrativa contado seus causos junto com a Velha Guarda, demonstrando um amor verdadeiramente genuíno pela escola e pela comunidade, mas respeitando seus papeis de coadjuvantes e permitindo que os velhinhos sejam o verdadeiro coração do filme.

Tendo Osvaldo Cruz/Madureira como cenário, a obra passeia pelas casas simples do bairro e a cada encontro – seja nas calçadas que abrigam cadeiras ao longo de suas portas ou nos templos sagrados do samba, os botecos – somos brindados por encontros emblemáticos e canções que remetem à simplicidade dos envolvidos no ofício da criação e genialidade de um povo que aprendeu com a vida a arte de encantar. Algo que não pode ser aprendido em nenhuma escola – a não ser que ela tenha como uniforme o azul e branco e o chapéu de bamba, e como professores gente do naipe de Paulo da Portela e Paulinho da Viola.

Como já diz a letra do samba: ”Antigamente era Paulo da Portela, agora é Paulinho da Viola, Paulo da Portela nosso professor, Paulinho da Viola o seu sucessor”. Que esse rio de águas inquietas continue a passar por nossas vidas e nossos corações levar.

Viva a Portela!!!

Por Jarbas Santos

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