Mescalines – 2016.

12741942_1438680072843011_5870352625856815951_nA atmosfera sonora de Mescalines estimula os sentidos lançando-nos pelos delírios da imaginação.

Se você já leu um dos livros escritos pelo antropólogo Carlos Castañeda, certamente o nome Mescalines lhe soará familiar. Possivelmente virão a tona algumas passagens descritas pelo autor ligadas às experiências narradas sobre o efeito da mescalina, substância extraída do peiote. Nessas viagens, orientadas pelo brujo Don Juan, Castañeda vez por outra encontrava-se com uma entidade chamada Mescalito.  Caso sequer tenha ouvido falar de Carlos Castañeda, entendeu a mensagem graças a relação fonética entre o nome da banda, da substância e da entidade. 

Dá pra entender a partir disso que existe uma carga semiótica pesada ligada ao termo mescalines.  Parte dessa carga é formada graças à dimensão espiritual, até mesmo religiosa, que envolve o ritual de ingestão da mescalina. Claro, uma religiosidade primitiva, xamânica, que exige tanto uma percepção sonora, quanto visual dessa experiência. O som desse encontro com uma outra realidade alcançada através da transcendência poderia muito bem ser o que está presente no álbum homônimo da banda, Mescalines, lançado no primeiro semestre de 2016.

Nunca usei mescalina, mas sei qual seria a trilha sonora da viagem. E não tenho dúvidas que uma cerimônia religiosa dessas seria celebrada com esse power duo paulista tocando no local. Isso mesmo, Mescalines são dois caras, o guitarrista Jack Rubens e o baterista Mariô Onofre. As músicas remetem ao xamanismo, à lisergia e aos desdobramentos psicodélicos que o som deflagra. A construção das frases musicais baseadas nas estruturas da música oriental intensifica o tom psicodélico do som. O mergulho na sonoridade oriental é feito sob o invólucro do rock e do blues. Não há economia no uso de efeitos sonoros por Jack sempre revestindo seus riffs licks com eles. 

O álbum abre com a faixa Serpente de Bronze, música de levada cadenciada, acentuada pelos graves da bateria, construindo uma base rítmica tribal onde a guitarra edifica suas passagens. Somos feitos refém de uma atmosfera abstrata de sons, que leva nossos sentidos a desfocar de qualquer ponto, dissolvendo a parte da realidade sustentada pelo som. O peso xamânico se manifesta nos arrastando ao transe!

Solaris tem desdobramentos mais dinâmicos. As baquetas de Mariô Onofre passeiam por todas as peças da bateria indo e vindo, imprimindo certo grau de agitação à música. A guitarra despeja seus licks secos alternados com linhas melódicas pontuais, sempre destacando as notas dissonantes sem deixar o grau de intensidade diminuir em nenhum momento. 

Tenho que dizer, Nomad é minha música preferida deste álbum! Poucas vezes um nome resumiu tão bem a essência de uma música. Não há um ponto fixo, passadas rítmicas, melodias e licks estão sempre se movimentando, constantemente alternando suas posições. Recebemos essa influência de forma direta e nos colocamos em movimento com o som feito pelo duo nesta música. Pássaro Vermelho I faz mais barulho, os graves são colocados em destaque e Jack Rubens explora todas as possibilidades que a guitar slide permite realizar. No desenrolar da música efeitos sonoros vão se intensificando e aquilo que começou denso, aos poucos vai vibrando, se desenrolando em ondas sonoras cada vez mais esparsas e livres, reverberando pela imensidão. Difícil evitar a sensação de dissolução física. 

Barko certamente é a faixa mais abrangente devido ao alto grau de abstração que possui. Curioso é a sensação de alternâncias, como uma miríade de luzes piscando ao mesmo tempo, causadas pelo microcosmo sonoro gerado nesta música. Ouvindo Barko temos as nossas percepções embaralhadas de modo a perdermos nossas referências dimensionais. O desenvolvimento da música lembra bastante o reverberamento de ondas gerado ao jogarmos uma pedra num lago. Primeiro temos um círculo de onda com seu raio bastante pequeno, mas que na medida que vai se propagando, a circunferência vai se expandindo. Isso ocorre nesta música que aos poucos tem sua “circunferência” aumentada. 

A pegada de Nebulosa tem intensidade mais rocker, inclusive, atrevo a dizer, mais garageira, dentro dos limites que caracterizam a sonoridade da banda. Seu desenho sonoro é coeso, direto, permite que a gravidade atue impedindo fugas através do ar. Claro que esta mudança de direção para o rock mais simples não implica se desfazer de toda carga psicodélica e abstrata própria à sonoridade do power duo. Isso fica evidente ao ouvirmos a faixa. Digamos que existe uma menção à fuga para o abstrato, mas que não ocorre. Cria-se uma atmosfera interessante na medida em que ficamos no meio do caminho, tendo que lidar com certa sensação de desconforte própria de quando nos encontramos num estado de indefinição. 

Talvez eu esteja no ápice da viagem, mas Pássaro Vermelho II é uma valsa! Não consigo deixar de prestar atenção na condução feita pela levada da bateria. Essa levada coloca-nos sob a condução do compasso ternário, o compasso das valsas! Temos pela maior parte da música essa bailar leve e fluído da valsa, porém com o devido peso do rock. O álbum termina com Calchaquí, uma viagem introspectiva de Jack Rubens por grande parte da música. Só a guitarra fabricando seus sonos direcionados a lugar algum, esperando alguma interferência, algo que lhe roube o transe. Eis que a bateria surge para jogar o som para outras sendas e trazer Jack Rubens de volta à “realidade”.

O atual cenário de rock instrumental no Brasil se diversifica cada vez mais. Quando nos deparamos com bandas como a Mescalines, que encontramos dificuldade tremenda para falar a respeito, percebemos o quanto nossa música possui originalidade, deixando claro não haver limites para a criatividade de nossas bandas. O duo paulista tem sua particularidade que os destaca dos demais. Destaque esse no que diz respeito à sonoridade. Apontam novos caminhos para o rock brasileiro, mostram estar diretamente interessados em criar novas formas sonoras que satisfaçam seus desejos artísticos. 

 Nota: logo3_notalogo3_notalogo3_notalogo3_notalogo3_nota

 

Ficha Técnica:
Mescalines: Mariô Onofre: Bateria e Percussão, Jack Rubens: Guitarra, Slide
Gravado e Mixado por Tomás Oliveira no estúdio Gerência.
Produzido por Mescalines
Arte da Capa: Fefa Romanova
Arte Gráfica, finalização: Aline Biz
Distribuído pelo Selo InstrumenTown

Sobre o Autor

Carlim

Jornalista musical instantâneo, saxofonista entre quatro paredes, híbrido de mineiro e baiano, ex-ateu, devoto ardoroso de São Victor do Horto e fanático religioso da Igreja Universal do Reino do Galo,

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