La Lunna Em Girl Power (2017) – Preta .Aço

La Lunna chega pesado demais em sua estreia, sim já chegou com um Ep de muita qualidade, com produção pesada e uma lírica direta e militante

 

La Lunna estreou a pouco no cenário do rap, porém já chegou com uma violência poética e demonstrando muita desenvoltura com a sonoridade Trap. Junte-se a isso, uma visão estética muito bem resolvida, um discurso intrincado que consegue aliar diversas bandeiras de luta pelas minorias. Foi minha parceira Mylena Bressy quem primeiro me mandou o link do clip “Sem Massagem” que ilustra muito bem o que a rapper de Vitória da Conquista busca conquistar com sua música.

Track escolhida como single do Ep que agora veio a luz, La Lunna é captada pelas lentes da Blasé Unity (responsável pela produção de alto nível) junto com outras manas nervosas prontas pro arregaço. E é exatamente essa postura de enfrentamento à opressão machista dentro do cenário rap, com espelho da opressão patriarcal de nossa sociedade, que a rapper do oeste da Bahia ilustra poeticamente.

Sendo assim, Girl Power é um Ep com 6 faixas e uma intro (Prod. Loro Vudu), contando com os beats de RB Alves, captação no Estúdio Drummond, Mix e Master ficaram a cargo de $antana e embalado pela arte de Ian Santiago. Um time que ajudou a artista a apresentar um disquinho muito redondo de cabo a rabo, apresentando toda a potência do rap feito no interior da Bahia. Dando vazão a expressão e ao conhecimento que La Lunna encontrou quando o rap lhe abraçou e apresentando sua arte da melhor forma possível.

Desde a excelente intro com colagens de diversos rap’s de minas do Brasil todo, o Ep exalta a luta e  muita coletividade com discursos de alto nível, tudo isso no ritmo dos beats, no flow e na poesia de La Lunna.  Jornalista formada pela UESB, a rapper alia muito bem conhecimento e técnica em suas faixas, junto a críticas muito bem elaboradas e fugindo sempre de clichês e palavras de ordem.

Prova disso é a primeira faixa do Ep, a pesada “Karma“, onde com muito ímpeto ela denuncia a “meritocracia machista” no rap. Aquele papo que já ouvimos mil vezes, de que a manas não possuem “técnica” suficiente. E a resposta vem em alto nível, com flow e lírica de ponta, mas principalmente muita qualidade crítica, abrindo mão de reflexões tanto de ordem semiótica quanto linguística, algo que pouca vezes vimos.

Como sempre acompanho e vou aprendendo nas postagens da jornalista e pensadora Nerie Bento, as dificuldades para as minas do rap produzirem são sempre infinitamente superiores ao que é sofrido pelos manos. E é nessa pegada que vem a faixa “No Corre”, onde a mc traz uma narrativa de suas correrias e da intenção de suas produções. Luta e empoderamento das mulheres negras, desde as que trabalham com a música, mas também com as ouvintes que estão em outros corres. Como La Lunna mesmo canta:

“Minha meta é sempre atirar minhas rimas pra bater certo em quem se identifica/ não importa o sentido que tu preferir/ o importante é a mensagem servir. Decidi ser livre escrevendo poesias/ tirando da mente o que eu sempre sentia/ sendo natural é o que importa/ rima nos transforma da noite pro dia.”

Pragmática que deveria atingir não apenas mulheres, negras ou brancas mas todos que precisam de força pra lutar e necessitam de uma fonte de onde retirar e atribuir sentido a sua luta e identificar os obstáculos que são seus. Respeitando e entendendo o lugar de fala e a intenção do discurso, deveríamos ser capazes de pensar a força desta e de outras mensagens localizadas. E transpo-las para todo e qualquer pensamento da Alteridade, da diferença, numa perspectiva de agregar os diferentes discursos contra a opressão.

Junto a dureza e a força do discurso contra o machismo La Lunna também exala feminilidade e independência. “Trap-Ar” é uma faixa que poetisa o respirar, cantar, trabalhar, compor, trepar, atos naturais mas nem por isso menos reprimidos. Palavras que mais do que demonstrar a ousadia da mana, deveria deixa-nos perplexos diante da forma como nossa sociedade tenta barrar e mesmo excluir todo e qualquer comportamento autônomo e livre por parte das mulheres.

Corpo e subjetividade moldados para a luta constante que o feminino encara dentro de uma sociedade patriarcal e racista. “Local de Fala”, versa sobre a solidão das mulheres negras numa sociedade que privilegia os estereótipos brancos como os únicos dignos de admiração e desejo, digamos mais duradouro. Debate espinhento dentro do movimento negro e que certamente não nos cabe aqui aprofundar em chave teórica.

Nos impressiona a quantidade de camadas de interpretação e temas que a rapper consegue inserir em tão poucas faixas e de durações relativamente curtas. La Lunna alia como pouc@s a força do discurso com muita coerência e uma técnica muito bem construída. Técnicas que vão dos seus elementos de composição passando pela versatilidade melodica até a diversificação de flows. Uma lírica combativa, que encontrou nos beats do RB Alves o par perfeito. Se é verdade que representatividade importa é necessário ressaltar que em arte, a qualidade artística deve estar em pé de igualdade com o discurso e com a figura e isso La Lunna traz de tonelada!

E finalizando o disco a artista simplesmente bagaça demais, Skkkrrrrrr, com uma trapzeira cheia de conteúdo e num speed flow delicioso e mais importante de tudo: audível. Talvez mais do que audível, Girl Power, é a chave final da voz coletiva das minas negras no game. Um delicioso contraponto a uma pá de mc branco, vazios de conteúdo e que rimam a velocidade da luz, porém nessa velocidade: somem. Skrrrrrr.

Um grande Ep, que infelizmente não tenho visto ser compartilhado pelas minas e nem pelos manos em timelines. Dê uma oportunidade e deem o play nessa maravilha diretamente do interior da Bahia pro mundo e entrem no jogo da La Lunna. Vamos aprender que o jogo deve ser contra opressão, algo que deveria ser universal no rap.

Ficha técnica

Produção musical: La Lunna
Instrumental: RB Alves/ @rbalvesofficial
Captação: Estúdio Drummond
Mixagem e Masterização: $antana/ @rielgabb
Capa e Arte: Ian Santiago/ @blaseunity

Sobre o Autor

Danilo

Bodyboarder de alma, pandeirista de ocasião. Pagodeiro nas horas loucas. Quer apenas poder dormir em paz nos ônibus e acredita que os fones de ouvido são fundamentais para a criação de uma nova religião capaz de acabar com o mal no mundo. Vive de Boas...

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