GHETTO BROTHER – UMA LENDA NO BRONX

gb-coverGHETTO BROTHER – UMA LENDA NO BRONX mostra os fatos históricos e personagens responsáveis por criar a principal cultura urbana de empoderamento do povo negro ao redor do planeta: o Hip Hop. 

A cultura hip hop só foi possível graças ao sacrifício de um homem. Não, esqueça, não foi Afrika Bambaataa, refiro-me a um jovem chamado Black Benjy. A morte precoce desse garoto deflagrou toda uma cadeia de eventos que culminou na criação da cultura hip hop e o fortalecimento político e cultural da população negra, primeiro no Bronx, depois por todos os EUA, até dominar as periferias de todo o mundo.

Ghetto Brother: Uma Lenda do Bronx, narra a trajetória de outro Benjy, Yelow Benjy, jovem líder da gangue mais influente do Bronx no final dos anos 60, os Ghetto Brother. Seus pais o batizaram Benjamim Melendez, seu apelido ganhou por ter se apaixonado por uma filha de imigranes chineses. Sua juventude transcorreu durante os acontecimentos mais marcantes do bairro mais importante de Nova York em termos de acontecimentos sociais, políticos e culturais dos últimos 100 anos.

O roteiro foi escrito pelo alemão Julian Voloj, que cria uma trama bem urdida e carregada de emoção. A clareza do roteiro permite ao leitor adentrar de maneira orgânica nas cenas representadas por um traço bastante sujo, perfeito para transmitir o clima de violência, densidade e visual sujo que caracterizava o Bronx dos tempos das gangues. A arte ficou por conta de Claudia Ahlering, sagaz no modo de recriar em iagens o roteiro da HQ.

Os méritos da dupla são superados apenas pela natureza verídica da história que estão cotando. Narrada em primeira pessoa através da figura de Yelow Bejy, o roteiro se apoia em desdobramentos da vida desse jovem de origem portoriquenha, que transcorrem concomitantemente às profundas transformações pelas quais passavam sua cidade e seu bairro.

Devo ressaltar que Guetto Brother: Uma Lenda do Bronx é mais que a história de um bairro, de uma gangue ou de um jovem. É uma reflexão sobre viver sob o signo da opressão, sobre a importância que a reflexão política, econômica, social e cultural sobre nossa condição de habitantes urbanos tem para que reconheçamos a melhor maneira de lidar com a situação que nos é imposta por nossos opressores.

A tomada de consciência política por parte dos membros de gangues novaiorquinas na virada dos anos 60 para os 70 foi extremamente importante para a pacificação da área e consequentemente para o surgimento do Hip Hop como cultura de resistência e empoderamento da população afro/latina nos EUA.

Yelow Benjy inicia sua narrativa contando a história do Bronx, que no início dos anos 20 era um bairro próspero, habitado por pessoas cuja condição econômica permitia viver em uma área privilegiada da cidade. Essa condição sócio-economica do Bronx mudou rapidamente após a Grande Depressão, o bairro se deteriorou e passou a ser habitado por imigrantes de várias nacionalidaes .

Contudo a mudança marcante vem quando o urbanista Robert Moses coloca em andamento seu projeto de “modernização” da cidade. Isso muda completamente a geografia do Bronx que passa a ser cortado pela via expressa Cross Bronx. Bairros inteiros foram destruídos, o Bronx foi transformado num amontoado de escombros e imóveis abandonados na maior parte de sua área.

Famílias inteiras de imigrantes latinos e afro-americanos viviam nesse cenário de guerra, num ambiente inóspito, esquecido pelo poder público, em que os habitantes estavam entregues à própria sorte. Esse ambiente foi propício para que jovens sem qualquer tipo de objetivo na vida e condições de lazer  e recreação começassem a buscar meios de preencher seu tempo.

As gangues surgiram dessa necessidade de ter o que fazer enquanto se está vivo em um lugar desprovido de qualquer tipo de alternativa para realização desse desejo. Sem qualquer tipo de direcionamento racional, apenas munidos da busca por satisfazer seus instintos mais básicos, as gangues adotaram a violência como modo de vida. Territórios foram rigorosamente demarcados, regras estabelecidas para o trânsitos de membros de outras gangues em território inimigo. Havia regras para encontros onde as gangues se enfrentavam em batalhas encarniçadas. Jovens lidavam com esse contexto e experimentavam a sensação de terem atenção sobre si, graças ao poder que unidos adquiriam.

Nesse contexto é que Yelow Benji decide criar sua própria gangue e os Guettho Brother surgem para mudar a história do Bronx. Percebe-se na fala de Yelow Benjy um tom diferente, desenha-se novas coordenadas para o que deveria ser o papel de uma gangue. Inicialmente os Ghetto Brother são uma gangue como outra qualquer, preocupada em defender seu território e atacar os inimigos. No final dos anos 60 a gangue era uma das mais influentes de Nova York, possuindo mais de 2.000 membros entre suas fileiras.

Um fato mudou para sempre o propósito dos Guetto Brother, a visita de Joseph Mutumaini, membro do Black Panther Party for Self-Defense à sede da gangue. Mutumaini chamou a atenção de Yelow Benjy para quem eram os verdadeiros inimigos. A partir desse encontro o líder dos Guetto Brother passou a perceber as implicações políticas que as gangues tinham sobre a vida dos seus bairros e das pessoas que neles viviam. Era preciso fazer mais do que expulsar os junkies de lá, era preciso conscientizar todas as gangues sobre quem eram, quais as práticas que deveriam ser adotas por eles conjuntamente para lidar com o inimigo comum: os brancos, seus opressores na figura das grandes corporações, governo, bancos, etc. Deveriam perceber que estavam realizando o interesesses desses opressores, pois estavam ocupados em matarem uns aos outros. 

Essa tarefa parecia impossível de ser realizada, uma vez que as gangues viviam da luta entre si por território e medição de forças. Dar às gangues um novo propósito exigiria coragem, aplicação e pulso firme, características dos grande líderes. Yelow Benji possuía todas elas. A partir dessas reflexões elabora estratégias, convence primeiramente seus irmãos de gangue, para em seguida iniciar o empreendimento principal.

No dia 2 de dezembro de 1971 uma reunião foi marcada no Central Park. Todas as gantues estariam representadas lá. Savage Skulls, Savage Nomads, Black Spades, Dirty Dozzen, Roman Kings e claro, os Guetto Brother. Yelow Benjy percebeu que essa reunião era a oportunidade perfeita para tratar sobre a paz entre as gangues. Enviou seu braço direito, Black Benjy. A escolha foi feita pelo fato de Black Benjy ser um dos poucos membros de gangue que se dava bem com as mais diversas gangues. Era a figura perfeita para realizar essa tarefa diplomática.

O discurso de Black Benjy jamais aconteceu. Um membro dos Seven Immortals o assassinou friamente antes que tivesse a oportunidade de falar. Em situações dessa natureza apenas uma alternativa era cogitada como resposta: dar o troco. Charlie era um dos homens de confiança de Melendez e Conselheiro de Guerra dos Guetto Brothers. A retaliação já estava planejada e pronta para ser colocada em prática. Esse é o momento chave, quando Yelow Benjy consegue impedir que o sangue fosse pago com sangue. 

Os presidentes das principais gangues procuraram o líder dos Guetto Brother para oferecer ajuda na guerra que estava por vir. Yelow Benjy agradeceu, recusou a ajuda para a guerra e solicitou ajuda para alcançar a paz. Uma reunião foi marcada, todos os líderes de gangues do Bronx estariam presentes para fazer algo impensável, falar sobre os tremos para se estabelecer a paz entre as gangues. O encontro aconteceu no dia 08 de dezembro de 1971 no Bronx Boys and Girls CLub. 

Havia tensão, esperava-se o maior banho de sangue já visto entre gangues na cidade. Contudo, a paz foi selada, um documento redigido estabelecendo as regras de convivência a partir de então. As gangues passaram a cumprir propósitos diferentes. Iniciou um processo de articulação política, busca de conscientização da comunidade para que pudessem lutar por melhores condições para seu bairro. 

O tratado de paz aumentou as fronteiras do Bronx. Todos tinham livre acesso a qualquer região, as jaquetas com os distintivos das gangues passaram a ser permitidas em qualquer território. Festas surgiram, assumindo o lugar dos encontros marcados para brigas. Os confrontos passaram a ser entre grupos de dança, que se enfrentavam com coreografias durante as festas. Senhores da Guerra se tornaram Djs, b-boys, grafiteiros, mc´s. Muitas gantues seguiram o exemplo da Black Spades, cujo Senhor da Guerra (que se tornaria conhecido pela alcunha de Dj Afrika Bambaataa) foi responsável por transformá-la na primeira crew de hip hop, a Universal Zulu Nation. Seu lema era: PAZ, AMOMR, UNIÃO E DIVERSÃO. 

Ghetto Brother: Uma Lenda do Bronx mostra que o conhecimento, anos depois reconhecido como quinto elemento da cultura hip hop, pode transformar a realidade. Desmistifica a imagem pejorativa construída para rotular os moradores das periferias. Conhecer a história de Benjamin Melendez e seus Guetto Brother vai além da leitura, lança-nos diante da compreensão de que a vilência urbana e a o que de forma rasteira denominamos marginal, não passa de uma construção social e espistemológica, facilmente desfeita através da aquisição do conhecimento. 

Ficha Técnica:

título: GHETTO BROTHER: UMA LENDA DO BRONX
isbn: 9788563137555
idioma: Português
encadernação: Brochura
formato: 19 x 26
páginas: 128
ano de edição: 2016
edição:

Editora: Veneta

Sobre o Autor

Carlim

Jornalista musical instantâneo, saxofonista entre quatro paredes, híbrido de mineiro e baiano, ex-ateu, devoto ardoroso de São Victor do Horto e fanático religioso da Igreja Universal do Reino do Galo,

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