Documentário comemora os 35 anos da Cogumelo Records

cogumeloCogumelo 35 anos conta a história do selo mineiro responsável por lançar as principais bandas do metal brasileiro e consolidar o gênero no país.

A história do metal no Brasil se confunde com a história da Cogumelo Records, gravadora mineira fundada em Belo Horizonte nos anos 80. Não foi por acaso que BH se tornou o berço do metal no país e de bandas como Sarcófago, Sepultura e The Mist que viriam a ser referencia para headbangers do mundo todo. Na verdade a Cogumelo inicialmente era mais uma loja de discos na cidade. De início a loja vendia discos de vários gêneros musicais, seus donos nem sonhavam em transformá-la numa loja especializada em metal. O processo de se tornar uma loja especializada em metal ocorreu naturalmente, numa verdadeira seleção natural musical, cujo ápice foi justamente sua adaptação ao meio ambiente que a cercava. Num ambiente povoado por metaleiros a Cogumelo se converteu primeiramente numa loja de metal para na última etapa desse processo de adaptação ser uma gravadora de metal. 

Já havia uma cena metal forte em BH no início dos anos 80, algumas bandas começavam a despontar na cidade. Dentre as mais famosas no período pré Cogumelo Records, ou seja, antes de 1985, a Overdose já possuía uma reputação de peso na cidade. Contudo,  faltava acesso a informação e principalmente ao objeto de desejo de todos, os discos. Acontece que a Cogumelo além dos discos de jazz, blues, MPB, também comercializava discos de metal. Por esse motivo começou a chamar a atenção dos metaleiros da cidade que começaram a frequentar a loja primeiramente para comprar discos de metal e posteriormente para conversar sobre as bandas que curtiam e estavam ouvindo.

O boom segundo Pat Pereira (co-fundadora da Cogumelo) se deu quando começaram as viagens a São Paulo para trazer as novidades fonográficas que pintavam por lá. Quando ela e o marido retornavam de viagem com novos discos já estavam preparados pra multidão na frente da loja esperando sua abertura. Foi aí que perceberam estarem lidado com um público específico, interessado unicamente em metal. Isso levou os proprietários da loja a fazerem da Cogumelo uma loja exclusivamente voltada para o metal.

A partir daí a porta da Cogumelo virou point dos metaleiros belorizontinos, que iam pra lá comprar e ouvir discos, tomar umas biritas e trocar informações. Nesses encontros tanto membros das bandas de metal locais quanto fãs interagiam entre si, o que muito contribui para o fortalecimento da cena em BH. Os depoimentos de quem frequentou a Cogumelo naquela época mostram o lado engajado da Pat Pereira que após o expediente botava pra rolar videos pra galera assistir. Fato interessante nos depoimentos é a reação da vizinhança que se mostrava incomodada com a movimentação na frente da loja. Das janelas dos prédios chovia objetos de todo tipo, água e mijo sobre as cabeças dos metaleiros. 

Nessa eferverscência surge a ideia de gravar as bandas da cidade. Vladimir e Guilherme do Chakal e Paulo Junior do Sepultura trabalharam na Cogumelo, mesmo período em que João Eduardo, marido de Pat, deixou o emprego na construtora em que trabalhava para assumir as rédeas da loja. O contato entre membros de bandas da cidade e João Eduardo levou à ideia de gavar discos das bandas locais.  A ideia inicial era gravar um álbum da Overdose. Vladimir contudo sugeriu uma outra opção, uma banda que começava a chamar atenção na cena metaleira de BH, o Sepultura. Nasce assim a Cogumelo Records com o lançamento do split Overdose/Sepultura em 1985. O lado Overdose contava com Século XXo lado Sepultura com Bestial DevastationTinha assim iniciado a trajetória da mais importante gravadora de metal do Brasil.

Indo até o Roça´n Roll,  festival de rock realizado na cidade de Varginha, entramos em contato com bandas que integram o cast da gravadora. Os membros das bandas falam do contato com a Cogumelo, sua importância para o metal brasileiro e como se sentem tendo seus álbuns lançados pelo selo. Temos depoimentos de membros de bandas que gravaram pela Cogumelo no final dos anos 80 como a baiana Headhunter DC, passando por bandas que gravaram ao longo dos anos 90, como a Attomica, até a nova geração do metal brasileiro representada por bandas como Drowned,  Tray of Gift e Hatefulmurder

Alguns depoimentos se destacam, como o de Rodrigo Berne da Tray of Gift. Segundo o músico ele ouvira falar da Cogumelo em 93 quando discos da gravadora apareceram em Varginha. Fato curioso é que ele não sabia que a Cogumelo era um selo nacional, menos ainda que as bandas de que gostava cujos discos haviam saído pelo selo eram brasileiras. Na cabeça daquele adolescente do interior mineiro se tratava de um selo e de bandas gringas tamanha a qualidade. Outro destaque é o depoimento de Sérgio da Headhunter DC que conheceu a Cogumelo através do split Overdose/Sepultura. Segundo conta o metaleiro baiano, fazia parte de um fã clube da Overdose, mostrando que seria inevitável o contato com a Cogumelo. 

Os depoimentos mostram o quanto a Cogumelo havia crescido em apenas alguns anos. Bandas de todo Brasil começaram a mandar suas demos para a gravadora afim de ter um LP gravado e lançado pelo selo mineiro. Além da Headhunter DC, que é de Salvador,  temos os curitibanos da Amen Corner e os paulistanos da Ratos de Porão. Segundo Sucoth Benoth da Amen Corner o João Eduardo pirou no som da banda e rapidamente os convidou para assinar contrato e lançar um álbum pelo selo. Jão, guitarrista dos Ratos, conta a história da ida da banda a BH para a gravação do álbum Cada Dia Mais Sujo e Agressivo lançado em 1987. Pat Pereira conta como foi a relação com os Ratos de Porão e a experiência de lidar com uma banda de fora da cidade para gravar pela sua gravadora. Essa situação gerou divertidas histórias, ao menos para nós espectadores. 

A Cogumelo que já era uma loja de discos e gravadora, resolveu ir mais longe se enveredando no universos dos festivais de metal. BH passa a figurar como parada obrigatória das principais bandas nacionais e internacionais. O objetivo era criar uma vitrine para as bandas da gravadora e coloca-las lado a lado com as bandas gringas. O primeiro festival organizado pela gravadora, cujo nome não aparece no filme, trouxe a Morbid Angel, cujo show foi aberto pelas bandas do cast da Cogumelo a Sex Trash e a Sarcófago.  Aos poucos a Cogumelo começou a ganhar famas além das fronteiras brasileiras graças as bandas que gravou. Sarcófago, Sepultura, Overdose e Mutilator que ganharam destaque na cena metálica mundial influenciando muitas delas. 

São citados como álbuns fundamentais do metal lançados pela Cogumelo o Inri (87) e o The Laws of Scourge (91) da Sarcófago e Schizophrenia (87) e Morbid Visions (86) da Sepultura. São ressaltados pelos entrevistados o fato do Sarcófago ter introduzido a famosa batida metranca da batera e terem criado uma forma de metal inexistente até então. A qualidade do estúdio JG e a produção do Gauguin foram determinantes para a qualidade dos álbuns lançados pela Cogumelo. As bandas encontraram ali toda condição necessária para gravar seus álbuns em alto nível.

Quando o documentário aterriza em Londres temos a noção do quanto a Cogumelo e “suas” bandas tem importância para a cena metálica mundial. Os depoimentos de brasileiros que vivem em Londres confirmam essa tese. Segundo muitos deles os amigos britânicos e imigrantes que também se interessam por metal sempre querem trocar uma ideia além de Sepultura e Sarcófago também sobre Holocausto, Sex Trash, Mutilator. 

Nessa parte londrina do doc destaco as falas de Diego Sarcofágo, de origem sul-americana, que adotou esse “sobrenome” pelo amor à banda mineira. Ele diz que seu primeiro contato com a Cogumelo foi em 1990 e diz se orgulhar por ter em seu país, ele não informa qual seria, os cassetes das bandas da Cogumelo. É destacado o show da Vulcano no Live Evil Festival em Londres. Segundo Diego “é considerado um dos maiores shows que ocorreram em Londres”. Os headbangers brazucas são perguntados se já viram pessoas usando camisas de bandas da Cogumelo. São inúmeros os testemunhos de gringos usando camisas de bandas da gravadora mostrando sua força mundo afora. 

O metal brasileiro tem na Cogumelo sua base. Está na sua solidez a chave pra entender o desenvolvimento do metal brasileiro a tal ponto de rivalizar com grandes selos do metal internacional. Conseguimos fazer ao nosso modo esse som vindo de terras estrangeiras. Devemos isso a um casal que viu na Cogumelo mais que uma oportunidade de ganhar dinheiro, um meio através do qual poderiam fazer com que a música de uma geração inteira pudesse acontecer. São 35 anos de amor à música e de dedicação a uma atividade que lhes trouxe prazer. Esses não são 35 anos de vida apenas da Cogumelo, mas do metal no Brasil. 

Site oficial da Cogumelo: http://www.cogumelo.com/pt/

Sobre o Autor

Carlim

Jornalista musical instantâneo, saxofonista entre quatro paredes, híbrido de mineiro e baiano, ex-ateu, devoto ardoroso de São Victor do Horto e fanático religioso da Igreja Universal do Reino do Galo,

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