Do Black ao Sabbath: A Maturidade Embrionária do Metal

Yuri Sabaoth analisa a fase áurea do Black Sabbath a partir do álbum Sabbaht Bloody Sabbath e nos coloca em contato com os primeiros tempos da gestação do Metal!

Por Yuri Sabaoth

Que delícia é absorver a mais alta essência da grande e absoluta pedra de toque do que significa o Metal. E toda a banda, é verdade… Mas, sinceramente, se não for com o Ozzy, não se trata nem de Black Sabbath, pra mim. É outra banda. Não decepciona tanto, mas é inigualável, e eu vou tentar explicar o porquê.

You think I’m crazy and baby I know that it’s true/ Before that you know it I think That you’ll go crazy too

Você acha que eu sou louco e baby eu sei que é verdade/Antes que você saiba eu penso que ficará louca também

Trecho de Killing Yourself to Live

Eu particularmente sou casado com o Vol. 4, e creio que não é hoje que eu vou me livrar das garras desse amor gostoso, mas é preciso fazer uma apologia ao Sabbath Bloody Sabbath. Aqui é um dos pontos altos da inspiração da banda e simbiose criativa desse conjunto.

Nobody will ever let you know/ When you ask the reasons why/ They just tell you that you’re on your own/ Fill your head all full of lies

Ninguém nunca vai te deixar saber/ Quando você pergunta as razões, o por quê/ Eles apenas dizem que você está por conta própri/ Enchem sua cabeça de mentiras

Trecho de Sabbath Bloody Sabbath

Os primeiros 5 discos da banda tem ainda um clima quase perfeito e inusitado de uma espécie de Metal Boca de Sino – o que é uma maravilha, aliás. Isso se transmitia desde os riffs chapadaços do Iommi, que te acompanha com a cabeça quase hipnotizado, até as letras com tom messiânico, revolucionário e de inspiração religiosa.

É importante observar que muitas das letras e da temática da época do Ozzy não vêm da cabeça dele. Muita coisa que era posta vinha do Geezer Butler, um dos idealizadores da temática da banda. E é esse um dos pontos específicos que eu acho que se não for com o Ozzy não é nem Sabbath (até certo ponto, depois chego nisso).

Essa temática político-chapadesca-apoteótica-religiosa-messiânica-megalomaníaca-depressiva-hedonista não tem o mesmo tom nem a mesma qualidade depois. Acho até pouco positiva a contribuição da narrativa fantástica do Dio pra banda. Além disso, não é questão só dos elementos PRESENTES, mas também da FORMA que isso aparece. Grande parte desse tom “messiânico” e “apoteótico” aparecem com o Dio, por exemplo – ouso dizer que são até quase a marca registrada dele -, mas são muito menos enraizadas na realidade concreta e às vezes política que eram com a fase Ozzy.

Well people look and people stare/ Well I don’t think that I even care/ You work your life away and what do they give?/ You’re only killing yourself to live

O modo como as pessoas olham e encaram/ Bem, eu não penso assim, não dou a mínima/ Você joga(apodrece) sua vida fora e o que eles te dão?/ Você só está se matando pra viver

Killing yourself to live

Na primeira metade dos anos 1970 (que é quando sai o Sabbath Boody Sabbath, 73), ainda se vive por aí afora uma loucura muito libertária (questionável) e porra-louca na ideia de questionamentos de um velho mundo (da seriedade e pudor do pós guerra da geração dos anos 1950) e da transgressão, da agressão e testando os limites que até hoje herdamos e impomos a nós mesmos enquanto pessoas, ouvintes e músicos do Metal.

Ainda nem se sabia muito bem quais eram os limites entre o que é Rock – que ainda ia atingir sua puberdade absoluta durante a segunda metade dos anos 1970, com o punk rock (o punk amadurece?) – e o que é Metal – Iommi, há menos de 5 anos declarou peremptoriamente que não entende muito que chamem o Sabbath de Metal, pra ele é Rock e pronto. E olha que de testar limites e porra-louquice o Ozzy entende como quase ninguém nessa bola flutuante que chamamos de Terra.

I am the world that hides the universal secret of all time/ Destruction of the empty spaces Is my one and only crime/ I’ve lived a thousand times/ I found out what it means to be believed/ The thoughts and images/ The unborn child that never was conceived

Eu sou o mundo que esconde o segredo universal de todos os tempos/ Destruição de espaços vazios é o meu primeiro e único crime/ Eu vivi milhares de vezes/ Eu descobri o que significa ser acreditado/ Os pensamentos e imagens/ O feto que nunca foi concebido

***

Love has given life to you and now it’s your concern/ Unseen eyes of inner life will make your soul return

O amor te deu vida e agora isso é sua responsabilidade/Olhos não vistos da vida interior farão sua vida retornar

***

Just remember love is life And hate is living death/ Treat your life for what it’s worth And live for every breath/ Looking back I’ve lived and learned But now I’m wondering/ Here I wait and only guess/ What this next life will bring

Apenas se lembre que amor é vida e ódio é morte em vida/Viva sua vida pelo que vale a pena e viva por cada respiração/ Olhando para trás, eu vivi e aprendi, mas agora eu estou indagando/ Aqui eu espero e somente me pergunto o que essa próxima vida trará

Trechos de A National Acrobat

O que é importante disso é que há o sentimento de que é hora de chapar e tentar entender outras dimensões e questionar tudo aquilo que até a geração dos pais deles se tinha como realidade – ontológica, social, ética, filosófica, metafísica. Aliás, que bosta de Metal a gente tá fazendo hoje que não é assim? Metal bunda-mole, conservador, careta… e o pior: cristão! Aliás, aí é que tá outro ponto, e é por isso que eu acho que O Black Sabbath (1º, 1970), Vol. 4 (4º, 1972) e o Sabbath Bloody Sabbath (5º, 1973) são os que mais fazem juz ao nome da banda.

Nas letras eles conseguem jogar muito (e que grande simbioze de ideias e voz entre Butler e Ozzy!) com a estética cristã, de onde vem o embrião da ideia de banda, e tudo aquilo que eles vinham pensando e questionando. Black Sabbath, inclusive, mais do que qualquer outra banda, na minha opinião, é que veio a consolidar com mais força o que vem a ser o VOCABULÁRIO do Metal, repetido, abusado e explorado de diversas maneiras através da história. Aliás, não é só a estética cristã, mas o vocabulário bíblico também.

Não se trata só de subverter. Não se trata só de inverter, de destruir e profanar como veio a tentar posteriormente o Black Metal, mas de se aproveitar, surfar e até ser tributário de algumas ideias judaico-cristãs e bíblicas de amor, consciência, existência, etc. Além de consolidar o vocabulário, o Black Sabbath veio a consolidar também boa parte do que se considera assuntos pertencentes e aceitáveis de se tratar no estilo, entre eles grande parte do que eu citei.

É isso! Tinha um monte de coisa pra escrever, coisas infinitas, talvez, mas vou parar por aqui. Ouçam essa porra. Fica aqui a provocação para aqueles que lerem e acharem que tá faltando alguma coisa ou que eu escrevi bosta: joguem suas críticas nos comentários!

I only have one more question/ Before my time is through Please I beg you tell me/ In the name of hell/ Who are you?/ Who are you?

Eu só tenho mais uma pergunta/ Antes que meu tempo acabe/ Por favor eu imploro para que você me diga/ Em nome do inferno/ Quem é você?/ Quem é você?

Trecho de Who Are You?

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