DaGanja Convocou O Bonde 36 E Chega Pesado

DaGanja é um dos mcs mais destacadamente musicais do rap brasileiro, algo que se torna evidente em seu terceiro e versátil disco, o Bonde 36

DaGanja. foto de Jardel Souza9

Embarcando na condução

Acordo com aquela lezera no corpo, corro a mão no celular para ver as mensagens no wahtsapp e confirmado: Não iria haver trabalho hoje. Um pequeno viva e sigo pra abrir o face. De cara me bato com a postagem sobre o lançamento do Bonde 36 do rapper baiano DaGanja. Corri pro notebook e abri o youtube, baixei uma por uma as 8 músicas presentes no Ep. De repente, um grito: Danilo cadê o feijão?

Joguei as músicas no celular e corri para o mercado e com os fones batendo os graves, o agrado vai se costurando pelo corpo no curto trajeto até o mercadinho. Rapidamente começaram os Dabs e as dancinhas entre a sessão das frutas e o freezer das polpas. Algumas frases começando a ser identificadas enquanto eu pedia 250 gramas de costelinha salgada, toucinho e pé de porco. Já na fila, tocou a conhecida e inclusive resenhada Fiança, os cotovelos foram pro alto e fizeram aquela dancinha característica. Em pouco tempo, as 8 músicas foram escutadas e aquela primeira impressão é de que preciso escutar outras vezes.

Trajetória

Bonde 36 foi uma das nossas companhias durante o carnaval, vez por outra ele aparecia na playlist. E depois de algumas audições ficou claro que deveria buscar mais informações. Corri pra escutar os outros discos, e passado mais algum tempo a impressão se fez forte. DaGanja com esse Ep alcança o ápice de sua maturidade estilística até aqui, algo que falta a muitos que chegaram a pouco tempo e que já querem reconhecimento a nível não só local como em escala nacional. A caminhada do rapper é de longa data, tendo passado como todo bom garoto de favela pelas bandas de percussão, essa foi sua primeira escola. Mas obviamente, como artista irrequieto que é não parou por aí. Já no rap, é em sua casa que o Afrogueto, um dos mais icônicos grupos – se não o mais – do rap BA, é fundado.

Afrogueto

Depois, através do conhecimento adquirido e fundido, ele entra para outro não menos importante grupo, o lendário Testemunhaz. Onde começa na percussão, pra depois assumir também os vocais. Além desses dois grandes grupos, Alan dos Santos (DaGanja) também fez parte do também histórico Verbo de Malandro.

Recentemente, integrou também a família UGangue, que certamente é um dos bondes mais nervosos e talentosos do rap nacional. E acreditem, não é pouco, quem sabe sabe, que esse currículo é o equivalente “rapistico” de ter jogado no Barça, na Juventus e ou em qualquer outro grande time.

Outra vertente evidente do trabalho e da carreira do mc é sua versatilidade, não é só percussão e vocais. O baiano chega em 2017 tendo acumulado participações em diversos projetos musicais com artistas de diversos gêneros, que vão do Soul ao Ska, da MPB ao Pagode Baiano. Além de ter muitas composições suas gravadas por ícones do pagode baiano, como o Psirico. Recentemente fez duo com o Kannario, numa versão da música do compositor carioca Edu Krieger, que repercutiu muito bem entre o público do pagodão baiano.

Além dessa sua caminhada numa pegada coletiva diversa e formativa, o rapper vem também construindo sólida obra solo. Vindo de dois trampos muito importantes pro nosso cenário regional: os discos Entre Versos e Prosa de 2008 e o Tá no Ar de 2013. Trabalhos que alcançaram repercussão nacional, muito antes da legitima luta por mais espaço.

Elencamos todo essa ficha pregressa, todo esse histórico porque percebemos nesse último Ep uma forte evolução. Se desde seu disco de estreia, o artista já flertava fortemente através da utilização dos samples e beats com outras sonoridades, já dialogava com outros aspectos rítmicos. Sem dúvida, Bonde 36 é a síntese perfeita, é o encontro de todas essas referências acima citadas, numa unidade muito potente. Uma evolução concedida apenas a quem caminha em evolução constante com sua música, com sua arte. Entre seus versos e sua prosa o mano conseguiu criar um estilo próprio, buscando se ligar a diversos estilos, estudando e acumulando bagagem. 

E o resultado dessa caminhada é que em Bonde 36 ele realmente se coloca “no ar”, aprofundando um estilo que congrega toda a sua versatilidade rítmica, do seu flow, assim como consegue sintetizar muito bem suas ideias. Capaz de passear por temas espinhosos, por questões que são caras a cena rap, sem perder nem um fio do hip hop como guia. Mostrando a possibilidade de ser leve e até mesmo com apelo fortemente pop, sem perder a essência.

Cê Tá Ligado, Só Vem De Bonde

Hoje, o rap nacional é talvez muito mais diverso que em tempos anteriores, são muitos estilos e expressões que aos poucos vem ganhando espaço. São diversas as tendencias que vem lutando pra conseguir espaço. Mas antes de qualquer discussão sobre mais espaço, DaGanja já estava tomando a cena nacional com o Afrogueto e ou com o seu trampo solo no Manos e Minas e no Rap Box. No entanto, ele não descansou e não buscou o bom sono em berço esplêndido, muito pelo contrario. Como acima ressaltamos, os anos vem sendo de trabalho, aprendizado e acumulo de experiência. Bonde 36 transpira essa intensidade, revelando uma sonoridade madura conjugada ao seu conteúdo contundente.

As diferentes produções presentes em Bonde 36, carregam o estilo, a técnica dos que as assinam, mas todas elas trabalham em prol da unidade do disco. Realçando diferentes sabores ao longo das oito faixas, Dj Gug, R. Braz e a trinca formada por DaGanja, Dante Oxidante e Braulio Passos, assinam cada qual ao seu jeito produções muito bem cuidadas. Seja em Trap’s, ou em boom bap’s todos os beats carregam sonoridades muito bem acabas e cheias de referências inusitadas. 

Com a participação de Ras Elias e Ravi,Vai Queimar negocia a real sobre a erva sagrada que batiza o Mc, nos aspectos éticos e políticos de seu consumo. Entre o gangsta e o reggae, no melhor estilo contestatório quanto a politica racista de criminalização do consumo e do cultivo da Ganja. Uma pedrada com cheiro de hit!

O renomado mc paulista Max B.O. que outrora recepcionou e apresentou o artista em terras paulistas, no Manos e Minas, participa aqui em uma das mais fortes do Ep. Uns e Outros, fala-nos um pouco sobre a postura de tranquilidade, respeito e paciência, importante para as vidas, seja na perspectiva artística ou cotidiana. Dois jovens senhores, que precisam ser escutados pelo novo público do rap, um encontro forte e significativo, através de trajetórias que se tocam ao longo dos anos.

O rapper nigeriano Teekay Omoyele, Braulio Passos e Nilce Ramos são convocados para agitar em Porradão do Baile, onde os graves predominam fazendo a cama para DaGanja desfilar um flow nervoso e rápido sobre as contradições presentes nas nossas festas. Sagacidade e olhar clinico para compor os diferentes personagens que podem ser nossos encontros – alegres ou tristes – vai depender. Nilce Ramos, que com sua arte embeleza também nos refrões na vencedora: Xeque-Mate.

Conexão Bahia-Fortaleza, Coro Mc e Nego Gallo chegam pesado em Nesse Bonde, dois grandes mc’s brasileiros que precisam ser mais ouvidos. Junto com o mano DaGanja, colam dando a real de como é o rolê não só nesse Bonde 36, mas em qualquer bonde verdadeiro. A missão sempre será união, respeito, solidariedade e conhecimento compartilhado. Qualquer outra conversa, dentro do hip hop é quatcha quatcha, dança de rato.

Compõem ainda o disco a versão muito forte que DaGanja fez em cima do beat da música Whit That do Young Thug. Fiança é uma porrada anti-genocídio, anti-fascismo dos que matam e dos que apoiam essas práticas cotidianas de nossa policia. Desvendando todas as artimanhas policiais que vitimam milhares dos nossos todo ano. Passado quase um ano do seu lançamento é uma música que ainda nos toca muio fundo, não apenas pela óbvia qualidade lírica, mas pela sua angustiante atualidade. Fechando as 8 faixas encontramos ainda outras duas músicas bem fortes, a que abre o disco: Segue sua Estrada e na sequência O Gueto Ferve

DaGanja. foto de Jardel Souzajpg

O espirito de torcida hoje é muito forte em todos os campos da sociedade brasileira, e não poderia deixar de afetar o rap. Falsas questões vem pipocando em redes sociais e sites de fofoca rapisticas. Uma das mais recentes bobagens dizem respeito ao anuncio de um “tar” de ano lirico e isso causou rebuliço. Um anuncio que deveria ser constatado me sua própria evidencia aja vista a característica desta nova geração que no último ano de 2016 se evidenciou na cena nacional. Se transformou em chuvas de indiretas e debates acalourados sobre nada!

Quem conhece minimamente a história do rap nacional sabe que sempre houve um predomínio ou pelo menos uma constância do liricismo no rap brasileiro. Com maior ou menor intensidade e ou qualidade. Porém a falta de contextualização do anuncio, assim como o desconhecimento do termo, implicaram problemas sobre o alcance dessa enunciação. Pois obviamente a mesma não elimina a história – por não ser capaz – nem refunda nada. Ao contrário, entendemos que há sim por parte dessa nova geração, uma tentativa para que aja um predomínio maior de raps que elevem o conteúdo lirico, como nas idades de ouro do rap nacional.

Sendo assim, tá aqui um disco que certamente faz jus ao “tar” do ano lírico, nas ideias, mas também numa sonoridade muito singular. Onde o mc conjuga diversos estilos de flow, diversas temáticas, uma musicalidade própria, com domínio de todos os recursos poéticos e sonoros disponíveis. Alguém que ao longo de muito esforço e dedicação forjou a ferro e fogo um estilo próprio que demonstra total domínio da linguagem do rap da qual se apropriou com singularidade.

Lembrando que todo grande poeta (e nem todos precisam ser ou usar o liricismo) é ao mesmo tempo um guardião e um inovador no campo da linguagem, DaGanja coloca seu Bonde 36, suas alianças e sua experiência sempre nas trilhas mais certeiras. Que o novo público o escute, e que os mais velhos, não o esqueçam!

O disco foi gravado por Braulio Passos no Estúdio WR e mixado e masterizado por Devasto Produções.

Baixe o disco aqui

Links para outras plataformas:

Itunes: https://itun.es/br/s-64hb

Spotfy: https://open.spotify.com/album/3ZebO5slad8Q2Ut1NfyL9V

Deezer: http://www.deezer.com/album/15369835
16/02/17

Google Play:https://play.google.com/store/music/album?id=Bj2dibtdsjc5yxye6ues446lmdq
16/02/17

Sobre o Autor

Danilo

Bodyboarder de alma, pandeirista de ocasião. Pagodeiro nas horas loucas. Quer apenas poder dormir em paz nos ônibus e acredita que os fones de ouvido são fundamentais para a criação de uma nova religião capaz de acabar com o mal no mundo. Vive de Boas...

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