Body Count, Bloodlust, 2017.

71rs-EwUZKL._SL1500_Bloodlust explora as tensões políticas e sociais que fazem fervilhar os EUA, escancarando o racismo, usado pelo estado como instrumento de repressão.

O clipe de No Lives Matter saiu no canal da Body Count no youtoube em 17 de fevereiro, estourou feito uma bomba, sacudindo os alicerces do metal extremo mundo afora. Apenas o anúncio do lançamento de um novo álbum de inéditas superou os efeitos do videoclipe. Bloodlust foi lançado no dia 31 de março munido de versos explosivos, causando estrago nos inimigos e despertando a mente dos aliados.

Devido ao forte engajamento político da Body Count e seus integrantes, era de se esperar manifestação acerca dos assassinatos de jovens negros por policiais nos EUA nos últimos anos. Configurou-se um cenário de confronto a partir desses acontecimentos. Houve de um lado a articulação política de toda comunidade negra contra essa prática secular, bem como o ressurgimento de grupos de extrema direita que defendem teses referentes à supremacia racial branca.

Movimentos de combate ao racismo e denúncia da violência policial contra pessoas negras nos EUA, dentre os quais ganhou destaque o Black Lives Matter, tornaram-se alvo de ataques de quem não entende a gravidade do racismo, por não serem vítimas do mesmo. Devido a ignorância, falta de compreensão sobre todas as dimensões que circundam o racismo, movimentos como o Black Lives Matter, são tomados por demagogia, ou até mesmo, vejam só, defesa da superioridade da raça negra.

Fruto dessa ignorância, o movimento All Lives Matter, surge intencionando mostrar que Todas as Vidas Importam, não só as vidas negras. Cegos graças aos privilégios de descender de europeus, não percebem que a intenção consiste em chamar atenção para o fato de os assassinatos de jovens negros nos últimos anos mostram que a vida desses não importa e, portanto, faz-se necessário chamar atenção para esse fato.

Eis o contexto que gerou o caldeirão fervente onde Bloodlust foi preparado. Ice-T e a rapaziada da Body Count sentiram-se convocados à luta, além claro de convocar mais aliados. Nesse sentido Bloodlust é fruto do atual movimento histórico, atua diretamente na luta que se desenvolve, tronando-se instrumento importante de conscientização e discussão acerca de toda efervescência social e política que acontece nos EUA, mas também em muitos outros países mundo afora. 

Diante de nós temos mais que um álbum de metal, pois seu conteúdo está para além da música, que funciona como um instrumento, um meio para alcançar um fim. Bloodlust pode ser compreendido como álbum de protesto, à procura de empoderar os que sofrem perseguição por meio de um sistema de poder opressivo em funcionamento há séculos.

Conscientizar as pessoas sobre as causas dessa opressão, apontar possíveis consequências de toda essa violência direcionada a um grupo social, leva Bloodlust à categoria de obra política, manual de combate, além de excelente álbum musical.  

Quando o play é pressionado ouve-se uma transmissão de rádio, trata-se de uma mensagem dos porta vozes do presidente dos Estados Unidos avisando sobre a declaração de Lei Marcial feita pelo presidente. A mensagem visa tornar os cidadãos cientes de que seus direitos civis estão oficialmente suspensos e qualquer um que não cumpra as determinações da Lei Marcial será preso sumariamente e declarado traidor da nação.

Trata-se de uma situação hipotética criada pela letra de Civil War que nos oferece a imagem de um futuro distópico em que os Estados Unidos vivem sua segunda guerra civil. Assim como a primeira, seria uma guerra em busca da liberdade, porém desta vez pela verdadeira emancipação dos negros e não por torna-los mão de obra assalariada ou livres para serem trancafiados em prisões e alimentar a indústria do encarceramento dos EUA.

Civil War tem a participação de Dave Mustaine, acrescentando fraseados dramáticos à faixa e um solo de guitarra frenético na parte final da música quando o andamento é acelerado. Ao final do solo o andamento volta à cadência com bends longos usados de maneira pontual, enfatizando o refrão da música quando Ice-T canta os versos “What side you on when the shit pops off?/ Black or White, wrong or right?” (“De que lado você vai tá quando a merda estourar?/ Negro ou Branco, errado ou certo?)

Os versos mostram a urgência dos negros assumirem sua posição diante da situação atual do país. Esta metáfora diatópica aponta para o que ocorre no presente, quando ações de policiais, representantes do estado, mostram que para essa parcela da população a Lei Marcial está vigente.

Rubem Fonseca escreveu um conto chamado O Cobrador. Nesta história um sujeito resolver cobrar a sociedade pelos direitos que lhe foram negado e por ter vivido em condição de miséria desde seu nascimento. Guardadas as devidas proporções, podemos dizer que Black Mask Way parte do mesmo princípio. No melhor estilo vingador solitário, a faixa aborda sentimentos e emoções causados pelo estado constante de opressão ao qual negros são submetidos nos USA.

No refrão a cobrança é feita enfaticamente: “I gotta get paid, I gotta get paid, I gotta get paid/ The Ski Mask Way”. A capa do álbum tem um homem armado usando uma máscara de ski tornado ainda mais simbólico o título Black Mask Way.  

Para deixar a chapa ainda mais quente, os caras acrescentaram um medley do Slayer Raining in Blood/ Postmorten ao setlist de Bloodlust. Acréscimo apropriado dada à fúria do álbum e sua intenção em denunciar e combater o derramamento de sangue de pessoas negras feito pelo estado através da polícia, seu instrumento de repressão. Qual imagem pode ser mais representativa dessa violência contra a comunidade negra que a de uma “Chuva de Sangue” (Raing in Blood”)?

No Lives Matters, faixa 9, teve seu clipe lançado em 17 de fevereiro, sinalizando ao público o que estava por vir.  Podemos considerar que No Lives Matters sintetiza o propósito do álbum, por contextualizar de forma pormenorizada os eventos que motivaram os protestos dos últimos anos, capitaneados pelo movimento Black Lives Matter. Para entender melhor esse ponto leiam nossa matéria sobre o clipe de No Lives Matters, basta clicar aqui

Outra música ganhou videoclipe, trata-se de Black Hoodie. Nesta faixa Ice-T relata o horror da brutalidade policial, direcionada à pessoas consideradas criminosas por se encaixarem no perfil estereotipado de bandido, sempre atrelado às características físicas e culturais de negros e latinos.

Sobre riffs sinistros de guitarra e viradas frenéticas de bateria, Ice-T relata o quão comum se tornou a política atirar em pessoas nos EUA. Cada disparo é descrito com detalhes, expondo um cenário no qual amigos são considerados suspeitos tão logo se deparem com algum policial. No refrão, Ice-T aborda o ponto de vista de um negro abatido após ser perseguido por policiais:

“I didn’t have a gun, so why am I dead?/ You didn’t have to shoot me, and that’s a known fact/ And now I’m laying face down with bullets in my back.”

“Eu estava desarmado, então por que estou morto?/ Você não poderia atirar em mim, isto é fato/ E agora estou com a cara no chão com balas cravadas em minhas costas” 

Vale ainda destacar a faixa título Bloodlust, que traz à tona a banalização da violência. Enfatiza-se na fala, que precede o início da música, o fato do humano ser o único ser vivo que usa a violência como forma de entretenimento.

Nem mesmo o fato de ser racional e poder resolver suas desavenças através do diálogo consegue faze-lo abrir mão da violência, preferindo em muitos casos matar aqueles que pensam de forma diferente, que defendem pautas distintas das suas ou mesmo que possuem traços físicos e culturais diferentes dos seus. No refrão é apresentado o diagnostico deste ser que encontra-se doente e sedento por sangue.

I´ve got a sickness, bloodlust/ I´ve got a sickness, bloodlust”

“Eu tenho uma doença, sede de sangue/ Eu tenho uma doença, sede de sangue

Além de Dave Mustaine o álbum conta com a participação do brasileiro Max Cavalera na faixa All Love Is Lost e Randy Blythe em Walk With Me.

Bloodylust pode facilmente ser encarado como ícone do metal nesta segunda década do século XXI, merecendo ser cotado para o hall de grandes álbuns de metal da história. Num estágio da carreira em que muitas bandas não conseguem criar mais nada, apenas nos oferecem antigas fórmulas recauchutadas, a Body Count impressiona pela potencia musical e criativa que apresenta. 

Do ponto de vista da história de resistência dos negros estadunidenses contra o racismo institucionalizado que os persegue desde a abolição da escravidão naquele país, Bloodlust  é sem dúvida uma arma de conscientização sobre o que deve ser feito para combater a opressão e até mesmo mostrar que ela existe, sendo praticada diariamente. 

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Sobre o Autor

Carlim

Jornalista musical instantâneo, saxofonista entre quatro paredes, híbrido de mineiro e baiano, ex-ateu, devoto ardoroso de São Victor do Horto e fanático religioso da Igreja Universal do Reino do Galo,

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