Belchior E Como O Tempo Andou Mexendo Com A Gente

Belchior nos deixou num momento histórico onde ele talvez não cabia mais, no entanto sua poesia viva resisti e se faz necessária como nunca!!

Por Ivan Santtana

 

Belchior Ivan Santtana

O tempo, esse fazedor de histórias, mestre Vitalino da criação, modelador do barro, que dá vida e perece todas as formas, andou mexendo com a cabeça do poeta, deu-lhe o prazer da reclusão, do silêncio, do descanso, como se já previsse essa morte silenciosa, tal qual a sua escolha nesses últimos anos. Ele, o cantor, o poeta, o compositor, conhecia o seu lugar:

Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Não sou do sertão dos ofendidos!
Você sabe bem: Conheço o meu lugar!

E no Brasil, nesse novo tempo de agora, da massificação da música, do não lugar da poesia, da alienação política, em que jovens e velhos pedem a volta do Regime Militar, não cabia mais Belchior. No país dos esquecidos, ele antecipou o seu esquecimento, pelo menos o do ser biológico, já que o ser da criação, junto à sua obra, esse ficará.
Há muito tempo ele já havia nos dito, “saia do meu caminho, que eu prefiro andar sozinho, deixem que eu decida a minha vida”. E assim sua vida cumpriu o que nos antecipara a sua música.

Se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava, de olhos abertos lhe direi, amigo eu me desesperava”. E o seu desespero, hoje, não era moda em 76. Era o tempo mexendo com ele, como mexe com todos nós. Ele que andava desesperadamente procurando pelo silêncio, silenciou ouvindo música clássica, amansando o seu coração selvagem.

O silêncio de Belchior nos incomodava porque carente estávamos, estamos, da sua palavra forte, sincera, objetiva, poética, cortante, porque hoje, mais do que nunca, estamos precisados desse canto forte que corte a carne de muitos, a garganta dos hipócritas. Há que nos contentarmos em ressignificar o seu canto do país ferido de outrora, com o país ferido de hoje, com suas canções que nos parecerão sempre uma roupa velha colorida. 

A voz de um poeta parece sempre mais forte quando ele parte. Os que assassinaram Lorca, talvez não soubessem disso, e os que fizeram Belchior escolher o lugar da reclusão, agora saberão, com seu canto torto feito faca cortando a nossa carne, reverberando em nossa memória. A voz desse menestrel, cancioneiro nordestino, nos tocará sempre, e nos dirá sempre “amar e mudar as coisas me interessa mais”.

Eu tenho medo de abrir a porta
Que dá pro sertão da minha solidão
Apertar o botão: cidade morta
Placa torta indicando a contramão
Faca de ponta e meu punhal que corta
E o fantasma escondido no porão“…

Talvez tenha sido preciso vencer alguns dos seus medos, sobretudo o da solidão, para que, em paz consigo mesmo, partisse nesse avião, nesse vôo sem volta, ou apertar o botão desse país morto, que pouco lhe acolheu nos últimos tempos. 
Há que sonharmos e escrevermos em letras grandes de novo, pelos muros do país, nossos anseios, porque os seus já foram escritos. E o tempo, ah, esse não mexerá na sua poética que já deu conta de ser eterna, mesmo que na Divina Comédia Humana nada seja eterno.

 

 

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