Aláfia, São Paulo Não é Sopa (2017)

42db492b8a523c226ee6c1c71f73d574.960x960x1Aláfia mostra, em seu mais recente álbum, que de “sopa” São Paulo não tem nada. 

São Paulo não é Sopa, novo álbum do Aláfia, mantém o caráter crítico dos seus antecessores, dessa vez esmiuçando a vivência na capital paulista diante das transformações provocadas pelos acontecimentos dos últimos anos. Para a maior parte da população paulistana nunca foi “sopa” viver nessa metrópole. Estar isolado em fronteiras muito distantes do grande centro urbano, implica antes de tudo lutar pela sobrevivência. Mas foi possível tornar a sopa ainda mais difícil de ser ingerida. 

A subida ao poder executivo de um empresário acostumado a ambientes planejados, onde tudo está em seu devido lugar, resplandecendo uma atmosfera esterilizada e estéril, constituído por padrões visuais e decorativos que representam o que foi convencionado considerar “aspecto de riqueza”, levou a mudanças radicais na aparência da cidade. Festas de forte apelo cultural e popular, como a “Virada Cultural”, responsável por movimentar a cidade em torno de atrações artísticas, podem ser direcionadas para um local especifico, isolando e descaracterizando essa experiência ao estar restrita ao autódromo de Interlagos.

Existe ainda a política higienista cuja visão de ambiente limpo levou à destruição de obras de arte grafitadas em muros, edifícios e viadutos da cidade. Padronizando o visual que antes apresentava toda uma diversidade de formas e cores, representadas nos diferentes traços dos artistas plásticos que faziam de São Paulo sua galeria. Dória tornou a “sopa” insossa e rala, intragável, sendo ingerida apenas para não se perecer à fome.

Nesse sentido a dificuldade de se viver em São Paulo expressa pela faixa título é bem apropriada, o que torna difícil não associar o nome da música à situação atual pela qual passa a maior e mais populosa cidade do país. Contudo o foco está sempre nas vidas obrigadas a lutar cotidianamente para sobreviver e conseguir ir além, realizar atividades que tragam algum alívio sobre a forma de prazer.

Essa vivência de quem sofre preconceitos por sua origem social, pela profissão que exerce, pela cor da pele, pela sua identidade cultural, abordada nas letras e swingada na música, é celebrada, problematizada e exposta em todos os seus contornos em São Paulo não é Sopa. São 11 faixas ancoradas na efervescência dos grooves e movimentos apenas propiciados pela musicalidade afro, devidamente temperadas com elementos eletrônicos, dando uma dimensão contemporânea da cidade.

Embora seja um disco caracterizado pelo swing, que poderia sugerir a intenção de apenas fazer dançar, consegue mesclar bem música e letra de forma a, também, ter um efeito perturbador sobre o ouvinte. Isso já havia sido feito magistralmente pela banda em Corpura (2015).  O novo álbum, contudo, possui atmosfera mais densa, sombria até, enfatizando tonalidades acinzentadas de uma paisagem que pouco a pouco se torna insossa. 

A faixa título aborda o dia a dia conturbado da cidade, realçado pelo uso de trechos de reportagens que noticiam crimes ocorridos na metrópole, dando a tensão do clima em que se vive por lá. Esse álbum se caracteriza pela exploração bem sucedida da esfera eletrônica musical, sendo usada na música de abertura. São efeitos usados para temperar o som dos metais, tendo no pano de fundo a pulsão de um aparelho usado na produção de ondas sonoras, imprimindo clima futurista e urbano à faixa. Abrir mão de som uníssono no canto para adotar a tríade vocal (duas vozes femininas e uma masculina) encorpou ainda mais o bloco sonoro, gerando efeito interessante no groove arrastado de São Paulo Não é Sopa. 

Em No Fluxo o grupo enfatiza o uso da sonoridade eletrônica, explorando amplamente os recursos disponibilizados pelo MPC* e Vocoder**, tocados/ operados por Eduardo Brechó, responsável pelos scratches usados na faixa.   Brechó criou feitos eletrônicos que geraram um ambiente sonoro borbulhante, na medida em que os efeitos gerados pelos instrumentos eletrônicos entram e saem de cena no decorrer da faixa. A levada funk resultante dos beats criados no MPC dão um dinamismo à faixa contrastando  com a atmosfera sombria marcante apresentada em No Fluxo.

Gentrificação trata de uma questão que assola os grandes centros urbano: a remoção de pessoas de áreas consideradas “abandonadas”, mas que chamam atenção da especulação imobiliária devido seu potencial econômico. Pessoas são desapropriadas de suas casas, transferidas para regiões que ainda não chamam atenção das empreiteiras e conglomerados imobiliários. Nesse processo visa-se, para variar, o lucro, o bem estar das pessoas vem em segundo plano, mas só para aquelas que podem pagar por ele.

Na letra encontramos o testemunho da mudança ocorrendo na cidade, onde os sinais vida intensa e sinais característicos dos bairros populares vão sumindo “Na janela já não brilha o azul da novela” “Não vi mais viela ou relevo ou favela” e em seu lugar surge uma paisagem de blocos pré-moldados, parecendo uma maquete em tamanho natural “Condomínio nivela Cala, gela/ Nem bola ou biela nem vento na vela/ Ninguém tomar relo ou cerol se ramela”. Eis que as brincadeiras de rua, as conversas de porta de casa dão lugar a outros sons “Tilintar de panelas, nem função nem tabela”

A dúvida se haverá ou não a vila no lugar de sempre “Numa volta pela vila não sei se vou vê-la”, “Não vi que era via a antiga ruela/ Condomínio atropela Cala, gela” está sempre atrás da orelha de quem sabe a respeito do poder que a grana tem.

Falando em poder da grana chegamos à quarta música que, junto das outras três analisadas anteriormente, constituem, a meu ver, a alma deste álbum. Representa bem a totalidade do disco. Liga nas de Cem sintetiza de forma contundente toda energia crítica e natureza sombria de São Paulo Não é Sopa. A metáfora da nota de cem, embora não seja novidade, consiste na melhor representação do que é São Paulo, a cidade movida pelo lucro, onde todos estão apressados, com seu tempo sempre por um fio, pois “Times is money” e cada minuto é valioso.

Nessa busca pelas “de cem” fronteiras vão sendo traçadas, conflitos gerados, jornada cujo resultado é a compreensão da existência de uma realidade fragmentada a partir da renda de cada um. “São Paulo é solo preto/ Se eu contar os gueto/ Num sobra nem o centro” Num contexto social em que a renda estabelece as demarcações territoriais, sempre haverão situações conflituosas. Mais importante é saber qual seu lado e quem são seus inimigos. Não gostam da gente/ Lamento o ódio do inimigo/ Agora nóis é seu curto-circuito“.

Inicia a música um sample do verso “Mas em São Paulo Deus é uma nota de cem” cantado por Mano Brown em Vida Loka Parte II. Logo de cara fica claro  a força que a música desencadeará, tanto em sonoridade quanto em sentido. Estruturalmente segue por caminhos diferentes já que o refrão vem no início, pra deixar o clima turbulento.

O flow deflagrado emana a intensidade dos versos, fazendo vibrar tudo que encontra.  O refrão nos revela uma dinâmica comercial, cujas opções de consumo são determinas pela quantidade de grana guardada no seu bolso. Termina com versos “Não encosta em mim playboy/ Eu sei que tu quer o meu fim” que mostram que “da ponte pra cá” a galera tá bem consciente do que tá rolando. Portanto, não vai ser fácil, nem tranquilo tirar proveito de quem tá na correria. Movimentação esta bem exposta no Coro.

O Aláfia compôs um álbum agressivo tanto em sua mensagem quanto em sua sonoridade. Manteve o swing, o groove que cria movimento e faz balançar. Buscou novos sons que transmitissem o tom político e contestador das letras. Não é sopa viver em São Paulo, mas está claro, após ouvir este álbum, que por maior que seja a repressão empreendida contra a vida, maior a vontade do organismo e da mente em viver. No concreto e no asfalto a vida encontra um jeito de se perpetuar!

*O MPC, sigla para Music Production Center, é um aparelho lançado pela empresa japonesa Akai usado para gravar, armazenar e manipular sons. Usado com criatividade permite criar um número quase ilimitado de sons. Muitos DJs e produtores, geralmente ligados ao universo do hip hop, o utilizam para criar beats para que os MC’s possam encaixar seu flow e suas rimas. Há contextos em que o MPC pode ser usado como uma espécie de percussão eletrônica, dependendo da versatilidade de quem o toca.

Neste vídeo podemos ver Infamous Mobb, produtor da Wu-Tang Clan usando o MPC para fazer beats.

** O vocoder é um instrumento/ aparelho usado por músicos para sintetizar a voz humana.  Assistam esse vídeo, nele há um exemplo dos recursos disponibilizados pelo vocoder.

Gravadora: Agogô Cultural
Data de Lançamento: 10 de fevereiro de 2017

Sobre o Autor

Carlim

Jornalista musical instantâneo, saxofonista entre quatro paredes, híbrido de mineiro e baiano, ex-ateu, devoto ardoroso de São Victor do Horto e fanático religioso da Igreja Universal do Reino do Galo,

Notícias relacionadas

Comentar